jan 3, 2010 - Contos, Fragmentos Literários   

O Bug do Espelho

O Bug do Espelho

Por Leda Saraiva Soares

Meio ao profundo silêncio, um estrondo… Seria uma bomba jogada à nascente das águas lendárias da fonte localizada nas proximidades de Téspias na qual Narciso se enamorou de sua própria imagem? Seduzido por sua beleza, permaneceu ali, contemplando-a até consumir-se. Nasceram de seu corpo raízes e ele se transformou na flor conhecida pelo nome de Narciso.

Seria o “Bug” do Milênio? Sinais tão esperados em fim de século? Sinais dos tempos? Ou simplesmente, como querem alguns, apenas virada de ano? Chegada de uma nova era?

O velho espelho redondo, medindo quase um metro de diâmetro, com moldura antiga e resistente, de cor manteiga, com um tope entalhado na madeira da moldura que indicava a posição certa na parede, não quis assistir à chegada do ano 2000.

Eram 16 horas do dia 29 de dezembro do ano de mil novecentos e noventa e nove, quando desabou, ficando a parte do espelho voltada para o piso.

Quantas imagens esparramadas pelo chão entre cacos… Risos, trejeitos de adolescentes, de adultos e de crianças, congelados no tempo, desde o final da década de setenta.

Da velha fonte, jorrava, em torrente pela sala de nossa casa, muitas imagens de jovens, amigos de nossos filhos, nossos amigos que sempre nos visitavam, nós mesmos esparramados pelo chão.

O “Orango” foi o primeiro a se precipitar e, com ele vieram tantos: o “Cavalo” (Pedro), o “Felpa” (Vladimir), o “Bino” (Armindo), o “Pinico” (João), a Daniela, a Jussimeri, o “Goiaba” (Cassiano), o “Nuvem” (Alexandre), o “Anão” (José), a “Courila” (Jaqueline)….

Depois outra torrente trazia a geração mais nova: a Rafaela, a Lisiane, a Karina, a Raquel, a Denise, a Mirian…

Mais afoitos e fazendo estripulia, saíram dali a Gisele, a Vitória, o Ícaro, o Marcelo, o Pedro, a Mariana, o Mateus, a Marina…

Só a bisa (vó Mariquinha) presenciou o “Bug” do espelho.

Ao chegarmos a casa, voltávamos de Porto Alegre, deparamo-nos com a vó Mariquinha sentada em sua cadeira de balanço e, a seus pés, o velho espelho emborcado. Disse-nos que se despencou fazendo um ruído medonho. Ainda bem que não caiu por coima dela. Antes de erguê-lo, cheguei a pensar que estivesse inteiro. Na hora de desvirá-lo, deparamo-nos conosco: o Noel e eu, saindo por entre os cacos. Lá no fundo, vimos outras pessoas desconhecidas que também se refletiram naquele espelho em outros tempos.

O espelho, qual água nascente da fonte onde Narciso se enamorou de si mesmo, por muitos anos, nos fez companhia, ocupando um lugar de destaque na sala de nossa casa, ou melhor, já fazia aparte da casa quando a adquirimos.

Esse espelho era irresistível, atraindo para si todos os olhares daqueles que chegavam à sala, refletindo o Narciso que cada um traz consigo.

Aquela moldura tão antiga já se integrara ao nosso ambiente familiar e mereceu outro espelho. Hoje, moramos em Imbé e o espelho nos acompanhou.

dez 22, 2009 - Contos   

Noites natalinas

Noites natalinas

Por Mariza Simon dos Santos

Quero escrever sobre o cotidiano natalino que a a cada ano se repetiu com o mesmo ritual: o pinheiro araucária trazido do mato, enfeitado com algodão e bolas coloridas, o rústico presépio, Papai Noel, uma figura mágica , as velas acesas para esperá-lo e os cantos natalinos entoados ao som do piano e do acordeão. Ah! Se me lembro daqueles natais!

Uma ceia farta na grande mesa centralizada com o conhecido peru, abatido na véspera, bolachas , nozes , não faltando outros saborosos complementos. E os doces? Como faltariam os doces numa mesa alemã? Torta, pudins, caramelados e a tão apreciada “torta de sorvete”, feita a muitas mãos.

Toda a família em frente ao pinheiro, tios,tias,primos e primas, toda a parentela, amigos, convidados, em torno da cadeira de balanço onde reinava a figura central de minha avó paterna.

A cerimônia natalina começava, alvoroço na sala apertada. O som de um sino abafado anunciava a chegada do tão esperado Papai Noel. Emoção: olhos arregalados e corações batendo e ele chegava com seu HO! HO! carregando um grande saco de estopa às costas, auxiliado pelos tios que tb. carregavam sacolas cheias de presentes.,

As crianças iam cumprimentá-lo , estendendo a mãozinha e estalando um tímido beijo em sua face fria. Ele perguntava sobre a escola e o comportamento, dando conselhos. Aos mais levados, mediante a intervenção de um dos pais presentes, levantava a mão mostrando uma vara fina do marmeleiro que havia no pátio da casa.

Depois das saudações vinha a hora de arte. As crianças recitavam versinhos, outras entoavam cantos natalinos e ensaiavam passos de dança, encorajadas pela entusiasmada parentela, acrescida dos orgulhosos pais.

Vovó, orgulhosa, balançava a cabeça sorrindo ,sentada na sua inseparável cadeira-de-balanço.

Ah! Como eram bons meus tempos de infância ! Como eram bons os meus Natais! Ainda existem na minha memória ! Da mesma forma, mantenho o mesmo tradicional ritual para que meus netos guardem nos seus corações a lembrança destes momentos mágicos em suas vidas!

dez 18, 2009 - Últimas Notícias   

Concurso Internacional de Literatura

A União Brasileira de Escritores (UBE-RJ) dá prosseguimento ao seu projeto iniciado há mais de cinquenta anos e promove novo CONCURSO literário de caráter internacional.

UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES (UBE/RJ)
Integrante da Federação Latinoamericana de Sociedades de Escritores
20021-350 Rua Teixeira de Freitas, 5 s/303 – Centro. Rio de Janeiro, RJ – Brasil.
Fundada em 27 de agosto de 1958.

 
UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES (UBE-RJ)
CONCURSO INTERNACIONAL DE LITERATURA PARA 2010.
 
 
R E G U L A M E N T O
 

I – DOS PRÊMIOS

Art. 1.° – Ainda com a ressonância do JUBILEU DE OURO recém-comemorado (1958/2008), a União Brasileira de Escritores (UBE-RJ) concederá, no próximo ano (2010), os seguintes prêmios literários para livros editados em 2009:
s        Contos – PRÊMIO CLARICE LISPECTOR;
s        Crônicas – PRÊMIO PAULO MENDES CAMPOS;
s        Ensaio – PRÊMIO AMELIA SPARANO;
s        Literatura Infantil e Juvenil – PRÊMIO VIRIATO CORRÊA;
s        Poesia – PRÊMIO ADALGISA NERY;
s        Romance – PRÊMIO LÚCIO CARDOSO;
s        Teatro – PRÊMIO MARTINS PENA.
Parágrafo único – Para livro de contos, será concedida também a MEDALHA HARRY LAUS, apenas para o primeiro colocado.
Art. 2° – A critério das Comissões Julgadoras poderão ser concedidas às obras concorrentes a qualquer dos prêmios uma menção especial e uma menção honrosa, exceto a Medalha Harry Laus que terá somente um ganhador.

II – DA APRESENTAÇÃO DAS OBRAS CONCORRENTES

Art. 3° – Poderão concorrer autores de quaisquer nacionalidades, desde que se expressem em língua portuguesa e tenham sido editados no ano de 2009. Enviar três exemplares da obra concorrente.
§ 1° – O autor deverá anexar envelope contendo: título da obra, nome e endereço completo do autor, telefone, e-mail (se houver) e sucinto curriculum vitae.
§ 2° – Não haverá devolução de livros concorrentes.

III – DAS INSCRIÇÕES E DOS PRAZOS

Art. 4° – Não há limitação quanto ao número de livros por autor, observadas as disposições do Art. 3.° e seus parágrafos.
Art. 5° – Os trabalhos deverão ser enviados entre os dias 4 de janeiro a 15 de maio de 2010, considerando-se, no caso de remessa pelo correio, a respectiva data da postagem.
Art. 6° – Os livros concorrentes a prêmios devem ser remetidos, em separado por categoria, para o seguinte endereço: Rua Teixeira de Freitas, 5, Sala 303 – Lapa, CEP 20021-350 – Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Solicita-se colocar no envelope ou embalagem o nome do prêmio a que se destina(m) a(s) obra(s).
Art. 7° – É vedada a participação de membros da Diretoria da UBE-RJ.
 
IV – DAS COMISSÕES JULGADORAS E ACEITAÇÃO DOS CONCORRENTES

Art. 8° – As comissões julgadoras serão constituídas, cada uma, por três escritores indicados pela Diretoria da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ), sendo irrecorríveis as decisões desses Colegiados.
Art. 9° – A participação no concurso implica a aceitação, por parte do concorrente, de todas as exigências regulamentares, resultando em desclassificação o não-cumprimento de quaisquer destas.
Art. 10° – O resultado do concurso será tornado público até 90 (noventa) dias após o encerramento das inscrições, devendo a entrega dos prêmios ser em data e local previamente anunciados.
Art. 11 – Qualquer informação ou correspondência, enviar para a Secretária da UBE-RJ Margarida Finkel – Rua Malvino Ferreira de Andrade, 69, Aleixo – CEP 25900-000 – Magé, RJ, Brasil. E-mail: margafinkel@hotmail.com
Art. 12 – Os casos omissos no presente Regulamento serão resolvidos pela Diretoria da UBE-RJ.
 
 
Rio de Janeiro, RJ, 30 de outubro de 2009.

dez 18, 2009 - Contos   

O dia de Natal

O dia de Natal

Por Leda Saraiva Soares

   Era uma expectativa muito grande até o dia 24, véspera do dia de Natal, data em que o Papai Noel chegaria com os seus presentes tão esperados.

   As pessoas, em sua maioria, deixam para fazer suas compras de Natal na última hora. O mesmo acontecia em  Tramandaí. Era um dia de movimento fantástico. A loja e armazém de meus pais ficavam apinhados de gente, todos querendo ser atendidos ao mesmo tempo. Parecia até o movimento da “Bolsa de Valores”, claro que  em menor escala…. O balcão da loja, sem exagero, ficava literalmente tomado por tecidos, uns sobre os outros porque não dava tempo de recolocá-los no lugar. Ninguém achava mais a tesoura para cortar tecidos… nem o metro… era o caos! Quando o movimento se acalmava, corria-se a pôr tudo em ordem para que possibilitasse dar continuidade ao atendimento. Todos ficavam exaustos. Mas a festa de Natal ainda estava para acontecer.

   Dez horas da noite… essa era a hora em que a família conseguia se reunir. As crianças desde cedo, estavam arrumadas, numa excitação grande, questionando sobre o Papai Noel: Existe? Não existe?

   O pinheirinho todo enfeitado era uma grande  atração. O presépio era um encanto! O tio Pedro liderava o ensaio das músicas que deveríamos cantar para o Papai Noel:  “Já faz tempo que eu pedi, mas o meu Papai Noel não vem…”(…) A bênção, Papai Noel, eu quero um presente seu, aquele que lhe pedi, você ainda não me deu…”(…) O canto nos acalmava e os adultos ganhavam tempo.  Cada criança tinha que fazer alguma coisa para o papai Noel: cantar, dizer um verso, dançar, rezar…

   À medida que as horas iam passando, sempre chegava mais uma pessoa atrasada. Alguém anunciava que o Papai Noel já estava a caminho. Era a hora de acender as  velinhas da árvore. Uma de nossas tias, tia Rola, tia Ioia ou tia Julieta, com um fósforo, acendia cada velinha do pinheiro. As luzes se apagavam. era um momento mágico!. Só o pinheirinho ficava iluminado. Nessa época, não havia, ainda, essas luzes “pisca-pisca” tão usadas atualmente. Entoávamos a música “Noite Feliz”. O coro de vozes  ia se intensificando e o cântico “Noite Feliz” era entoado por todos com grande emoção. Naquele momento, a lembrança de pessoas queridas que partiram desta vida, doía em saudade no peito de alguém. As lágrimas eram inevitáveis. A luz das velinhas realçava os enfeites da árvore que brilhavam intensamente, refletindo-se nos olhos dos presentes. Era um momento de saudade que se misturava à alegria daqueles rostinhos felizes e ingênuos das crianças.

   Finalmente, ouvia-se um bater forte da bengala do Papai Noel na madeira da escada do sobrado que conduzia ao hall. As crianças ficavam nervosas, alvoroçadas. Algumas começavam a chorar com medo do   Papai Noel. As maiores, com a presença do velhinho, aquietavam-se.

   A festa começava. As crianças faziam suas apresentações. Um adulto auxiliava o Papai Noel lendo os nomes escritos nos papéis dos presentes.O Papai Noel ia chamando, cada um por seu nome: Renato!, Marco Antônio! Glaci! Lizette! Leda! Gilberto! Beti, Clovis(…) Depois começava a chamar os adultos: Vovô Fernando! Vovó Bernardina! Mariquinha! Palmarito! Pedro! Rola! Aristides! Julieta! Ioia! E tantos outros nomes de pessoas que trabalhavam em nossa casa, tanto no balcão como nos afazeres domésticos: Santa! Elvira! Sem falar dos amigos que sempre estavam presentes em nossos Natais: Sedinha!Ah! essa não poderia faltar. Já fazia parte de nossa família, era a nossa amiga inseparável, sem a qual os brinquedos perdiam a graça.

   Papai Noel, depois de chamar por tantos nomes, despedia-se para voltar no ano seguinte.

Texto do livro: SOARES, Leda Saraiva.Tramandaí / Lembranças a Granel.Edição da autora,Porto Alegre, 2004, pp.70,71.

dez 18, 2009 - Contos   

Natal

 Natal

Por Leda Saraiva Soares

   É Natal mais uma vez!…
   Noite Feliz!… Noite Feliz!
   Bate o sino pequenino, sino de Belém!…
   Nasceu Jesus!… Nasceu Jesus!…

   Aquele era o recanto escolhido para colocar o pinheirinho: hall do sobrado. Para quem subisse as escadas, via a árvore de Natal, logo ao canto esquerdo.
   Na década de quarenta, na semana que antecedia o dia de Natal, um caminhão carregado de pinheiros de todos os tamanhos, procedente da Borússia, Osório, circulava pelas ruas de Tramandaí. O nosso pinheiro sempre foi dos grandes, alcançava o teto. Uma lata de querosene com algumas pedras e areia fixavam a árvore de Natal. Um papel crepom verde escondia a lata. Quando nossas tias buscavam, entre os guardados, as várias caixas empoeiradas, contendo todos os enfeites da árvore de Natal, nossos olhos cintilavam de expectativa.
   O bulício das crianças era incrível. Remexiam nas caixas, apesar da advertência dos adultos. De repente, uma bolinha escapava de nossas mãos inquietas e se espatifava em mil cacos brilhantes que se esparramavam pelo chão. E lá vinha um xingão: “Eu não disse que não era para mexer?”…

   Todo ano era preciso buscar mais enfeites na loja porque se quebravam alguns ao montar e ao desmontar a árvore. Diga-se que todos esses enfeites eram de vidro, de uma espessura delicadíssima…
As bolas prateadas, muito grandes, dependuradas nos ramos, refletiam nossos rostos de maneira deformada. Isso nos divertia muito.
   Havia uns enfeites em forma de bola com uma reentrância profunda. Era como se houvesse um cone colorido embutido na bola. Gostávamos de olhar esse enfeite… Os sininhos, tão harmoniosos, davam um toque especial á árvore. A ponteira era cuidadosamente colocada na haste mais alta, quase tocando o teto. Todo pinheiro que se prezasse haveria de ter uma ponteira em sua guia.
Todos os enfeites eram cuidadosamente colocados na árvore. Para apresentarem maior mobilidade, faziam-se alças de linha para dependurá-los.

   Os tradicionais castiçais de metal, com velas torneadas e coloridas, não poderiam faltar. Esses castiçais apresentavam um sistema de grampo, como um clipe para o cabelo que possibilitava a sua fixação nos ramos do pinheiro.
   Era a vez dos cordões prateados que interligavam os ramos, caindo graciosamente nos intervalos destes. Por último colocavam-se flocos de algodão para imitar a neve do Natal europeu. Enfeitada a árvore de Natal, adultos e crianças ficavam por alguns momentos admirando a obra, para ver se tudo estava bem feito e bonito.
   A segunda operação era a montagem do presépio ao pé do pinheirinho. Nas mãos de alguma criança sempre havia uma ovelhinha. E o lago? Cadê o espelho? E as gramas? E a estradinha de areia? A gruta. como vamos fazê-la?

   Nossa Senhora, São José e o Menino Jesus eram colocados com todo o respeito e devoção na gruta. Os Reis Magos para nossos ouvidos de crianças eram “reis magros”, com os presentes, vinham chegando. O anjo pairava sobre a gruta, glorificando o nascimento do Menino-Deus.
Nossa família era muito grande. Todo Natal transformava-se em uma grande festa, apesar de ser o dia de maior movimento no armazém e na loja

   No Natal em nossa casa comercial vendia-se de tudo: cortes de tecidos para confecção de roupas e toda sorte de presentes. Não poderiam faltar as tradicionais guloseimas: Papai Noel de cuca de mel, Papai Noel de chocolate confeitado com açúcar e uma infinidade de docinhos miúdos açucarados. Havia, ainda, doces de marzipã, apreciados pelas pessoas de origem alemã, feitos de uma massa de amêndoas com açúcar. Certa vez, quando criança provei um e não apreciei. Tinha um gosto que não agradava ao nosso paladar acostumado com o sabor de chocolate.

   Quando eu era bem criança, aqui em Tramandaí, não havia o costume do Papai Noel visitar as casas. Nós fazíamos ninhos como se costuma fazer na Páscoa e o Papai Noel, na calada da noite, deixava os presentes ao pé de nossas camas, em nossas caixas de sapatos decoradas por nós.Só por volta der 1945 é que conheci “Papai Noel de verdade”, ao vivo e a cores.

Texto do livro: SOARES, Leda Saraiva.Tramandaí / Lembranças a Granel. Edição da autora: Porto Alegre, 2004, pp.68,69.