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mar 19, 2013 - Textos históricos   

Por que vieram os açorianos para o Brasil? Um pouco de história

Por Leda Saraiva Soares

Após o descobrimento do Brasil, por mais de dois séculos, o Rio Grande do Sul ficou isolado do centro do País (questões geopolíticas).


Era necessário que se povoasse o Continente do Rio Grande de São Pedro para garantir a posse das terras. Espanhóis e portugueses viviam em constantes disputas, consequência do Tratado de Tordesilhas. Os portugueses mantinham um posto avançado do rio da Prata, defronte Buenos Aires, onde fundaram a Colônia do Sacramento em 1680, tendo como objetivo fixar nesse ponto a fronteira do Brasil. De São Paulo até Colônia do Sacramento não havia um só povoado. Em 1684 fundam Laguna para abastecer a Colônia. Até então, o acesso se dava por mar.
Em 1703, abre-se o primeiro caminho pelo litoral: antiga Estrada da Laguna, ora pela praia, ora pelo campo e por muito tempo foi palmilhado por todos que se aventuravam a estas paragens:

– Frota de João de Magalhães em 1725, para povoar o Rio Grande.
-Padres Jesuítas que vinham catequizar índios.
-Paulistas e bandeirantes que vinham atraídos pelas minas de prata no Peru e para aprisionar índios que eram levados para a lavoura no centro do País.
– Tropeiros que buscavam gado.
-Militares que vinham defender as fronteiras.
-Casais açorianos que vieram povoar esta terra.
Em 1737, Silva Paes funda Rio Grande com o forte militar Jesus, Maria e José para servir de apoio militar, defensivo à Colônia do Sacramento, constantemente sitiada por forças espanholas.

Em 1742, Silva Paes escreve ao Rei de Portugal sobre a necessidade da vinda de casais açorianos para trabalhar a terra nestas paragens. Diga-se que no Rio Grande só havia militares e criadores de gado que não se fixavam a terra. Deixavam em suas estâncias peões e capatazes. Viviam com suas famílias em Laguna, São Paulo…
Estâncias, rincões, invernadas iam surgindo ao longo do caminho trilhado pelos tropeiros.

Assim como Minas Gerais, as terras do Sul do Brasil começaram a fascinar os paulistas por conduzirem ao estuário platino e às minas de prata do Peru. Outro fator de atração foi a descoberta de expressiva quantidade de gado muar, cavalar e vacum. Tropear gado para o centro do país transformou-se em rendoso comércio para os tropeiros.

O Brasil transformava-se na Terra da Promissão para os filhos de Portugal. O ouro atraia no fim do século XVII e começo do seguinte, toda a gente, acalentados todos na esperança de descobrirem novos garimpos de Minas Gerais e nas catas de suas montanhas auríferas o cobiçado metal que seria a fortuna e a realização dos mais belos sonhos humanos .
O número de portugueses do continente, decidido a vir para o Brasil era tão grande que o governo começou a se preocupar.
A notícia do ouro e diamantes também chegou ao Arquipélago dos Açores. E um bom número de embarcações começou a fazer viagens para o Brasil, estabelecendo comércio de forma direta, sem o conhecimento do governo português, levando também o metal precioso para as ilhas, o que passou a desagradar ao rei de Portugal. Mas o Brasil precisava ser povoado. Os espanhóis já estavam avançando sobre o território brasileiro. A terra era de quem a povoasse. O governo português, para tomar controle da situação, baixou um edital no arquipélago dos Açores, acenando aos ilhéus com algumas benesses. O interesse foi grande. Muitos se inscreveram. O governo Português ao enviar ilhéus para o Brasil estaria resolvendo dois grandes problemas:
1-    A necessidade premente de povoar o Brasil.
2-    Superlotação das Ilhas dos Açores e falta de terras.
Os açorianos, por natureza, eram dotados de forte espírito de família, hospitaleiros, altivos, religiosos, tolerantes, valorosos, sem propensão ao crime. Amavam a liberdade e a independência. Eram disciplinados, obedientes e conservadores dos costumes domésticos e sociais.
Vejamos o que escreve Fernandes Bastos sobre a portaria que cria a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Arroio (Osório):

Transcrição ipisis litteris:
 (…) O Governador José Marcelino de Figueiredo [R.G.S.] consegue que o Vice-Rei do Brasil mande fundar uma povoação com o título de Nossa-Senhora-da-Conceição-do-Arroio, entre as Freguesias de Santo-Antonio-da-Guarda-Velha [Santo Antônio da Patrulha] e a de S.Luiz-do-Norte [Mostardas] para assentar sessenta casais açorianos.

Para isso expede o Bispo do Rio-de-Janeiro, Dom Frei Antônio do Desterro a necessária portaria, que tem a data de 18 de janeiro de 1773.   

Transcrição ipsis litteris da portaria expedida pelo Bispo D. Antônio do Desterro:
Dom Frei Antônio do Desterro, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo do Rio de Janeiro e do Conselho de sua Magestade [sic] Fidelíssima. Porquanto ilustríssimo e Excellentissimo Senhor Marquez Vice-Rey d’este Estado manda fundar uma nova povoação de moradores com o titulo de N.S.-da-Conceição-do-Arroio no lugar que fica entre a Freguesia de Santo-Antonio-da-Velha-Guarda e outra nova povoação que manda tão bem fundar com o titulo de São-Luiz-do-Norte, na Província do Rio-Grande,deste nosso Bispado:

Notas

 1 – Fortes, Gen. João Borges. Os Casais Açorianos. Presença Lusa na Formação sul-rio-grandense. Martins Livreiro – Editor –  p. 21,.(Edição do Centenário Farroupilha). 1999.
2 – BASTOS, Manoel E. Fernandes. A Fundação da Freguezia [sic] de N.S.da Conceição do Arroio, cap. VI, p.154.

mar 6, 2013 - Fragmentos Literários   

Lembranças, sonhos…o tempo…o vento…

Por Leda Saraiva Soares

Sentada na cadeira de balanço, tal qual Ana Terra de  “O Tempo e o Vento”, obra do grande escritor gaúcho, Érico Veríssimo, Candinha embala sonhos e lembranças,  misturadas à saudade de um tempo que a memória se empenha em não apagar.

Enquanto o vento nordeste brinca lá fora…

O relógio dourado, dependurado no centro da parede, sobre o grande espelho redondo, cercado por fotografias, marca o tempo que vai registrando a história da família. O espelho que já se integrara à parede, reflete imagens muito antigas e também as mais modernas, desafiando a memória da velha Cândida. Cobrindo a parede de tijolos à vista, lá estão muitas fotografias emolduradas, entre, elas algumas daqueles que já se foram e fitam os olhos de Candinha, no vai e vem  do balanço contínuo de sua cadeira.

Os filhos, netos e noras, imagens coloridas, estão ali emolduradas ao redor do relógio que, implacável, vai marcando cada minuto que passa.

O silêncio daquele momento a envolve. As imagens deixam as molduras, vêm até ela e passeiam pela sala feito fantasmas.

O relógio moderno não tem o “tic-tac” dos antigos, nem marca as horas com as constantes badaladas sonoras. Mas não deixa escapar um minuto!…

Tantas lembranças!… O silêncio que reina na sala leva Candinha a um  cochilo. Vê-se meio a uma festa que reúne toda a família. Uns tocam violão… Outros cantam… Outros conversam… As crianças correm fazendo uma algazarra que só elas sabem fazer. O chimarrão passa de mão em mão. As conversas se misturam. Vai sair um almoço daqueles! É preciso dar volume à voz para se fazer ouvir. Ela administra tudo com sua determinação e vivacidade. Vem o sobressalto. Acorda-se com seu próprio ronco.

A saudade aumenta e lembranças de um tempo chegam até sua alma: Por onde andará meu marido? Quanto tempo?

Meus filhos e minhas noras são maravilhosos, meus netos e netas nem se fala!… São carinhosos comigo. Nada me falta. Mas… Como é difícil viver sozinha sem aquela cumplicidade única que os casais que se amam desfrutam!…”

E os reveses que a vida lhe aprontara? Candinha começa a filosofar:

Por que sofremos?  Agora, com a idade avançada, no acalanto adulto e maduro de sua cadeira de balanço, longe da situação vivida, diante de seus olhos passa o teatro de sua vida. Só agora consegue analisar melhor as causas do sofrimento. Só agora começa a entender melhor: “É preciso administrar o orgulho, o preconceito, a falta de humildade, o rancor, o amor próprio, os princípios, a falta de simplicidade… A aceitação do outro como ele é. Mesmo sem entendê-lo, não podemos deixar de amá-lo. Não podemos julgar. Não sabemos o que o levou a agir do modo como age. É preciso conviver e administrar as diferenças. Orar muito. Vencer as barreiras do orgulho que nos aprisionam e não nos deixam falar com o coração. Em especial, trabalhar o diálogo. Complica-se demais a vida. Às vezes uma atitude, uma iniciativa, uma palavra, um gesto amoroso anulam o ressentimento, levam ao perdão. Este gesto simplificaria anos de sofrimento que afastam as pessoas que mais amamos de nosso convívio familiar ou social. Quanta perda de tempo!…”

E os sonhos? Será proibido sonhar?

Candinha sempre sonhou. Sempre acalantou sonhos em seu coração e lutou por eles. Nunca desistiu de seus sonhos. Mesmo que ninguém acreditasse neles. O importante é que ela acreditava. Lutava dentro das suas limitações, uma luta silenciosa, constante, dentro do seu tempo. E lá vinham as conquistas!… Nunca permitiu que alguém matasse seus sonhos. Isso acabaria com sua autoestima. E se lembrou do grande poeta Fernando Pessoa: “ Matar o sonho é matar-nos. É mutilar nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.”

E o vai e vem da cadeira de balanço embala as lembranças e os sonhos de Candinha, enquanto o tempo vai passando, levado pelo vento…

jan 20, 2013 - Fragmentos Literários   

Em agonia

A literatura agoniza quando um texto é adaptado para facilitar a compreensão, esmagando assim a arte e a técnica do escritor. A literatura agoniza quando notamos que os pequenos e médios leitores querem apenas o humor efêmero, as tiras cômicas e a ilustração. A literatura tirita de frio, de tédio e espirra em meio à poeira das estantes abarrotadas de clássicos que já ninguém folha nem pega, porque acha sua linguagem difícil e prefere ficar a distância de dicionários. A literatura agoniza quando preferimos as novelas, os filmes, o tempo gasto em conversas fúteis e superficiais nas redes sociais a ficar lendo um bom livro. A literatura treme de febre, já moribunda quando ouve que já não sabemos o que de fato significa um bom livro. A literatura morre em nós, quando dissemos que não nos interessamos por ela, que não simpatizamos com ela, que não gostamos dela e que só nos aproximamos se formos obrigados para fins de provas de vestibular por pedagogos e professores de literatura “utópicos e ultrapassados”.

Precisamos salvar a literatura!

Evanise Gonçalves Bossle

jan 15, 2013 - Poemas   

Fotografei

Fotografei

Por Evanise Gonçalves Bossle
Fotografei o tempo.
Eternizei o passado
Em uma foto de família.
E os anos passaram…
Paralisei o presente
Em meio a paisagens bucólicas,
Onde os únicos sons são dos pássaros
E das águas que correm em abundância
Nas correntezas ao sol.
E o futuro… aguardo-o ainda
E tentarei fotografar talvez
O que não imaginei até hoje:
Alegria e paz
Em um só dia atemporal.

jan 7, 2013 - Fragmentos Literários   

Contrastes

Por Evanise Gonçalves Bossle- 02/01/2013

Em uma dessas tantas tardes de verão fui visitar, em uma cidadezinha próxima, uns amigos que estão passando as férias na praia. Lá estavam amigos antigos e novos, de variadas idades. Em um dos canais da SKY, estava passando  um programa com clipes de músicas atuais, eu, como não posso ouvir música que já vou entrando no ritmo disposta a dançar, até convidei o pessoal . Mas para minha surpresa, nem mesmo as crianças estavam interessadas, as menores corriam pelo pátio em algazarra, as maiores sentadas, uma delas com o celular enviando mensagem, a outra, sentada ao computador no face book. Realmente, não havia muito que fazer. Então recorri à outra sala, onde estavam uns sete jovens reunidos, estranhamente num completo silêncio, pensei, então, tratar-se de alguma sessão de cinema, visto que, todos estavam compenetradíssimos de olhos na tela de 42 polegadas. Imaginem a minha surpresa, surpresa essa, que era apenas minha, as pessoas que viviam ali já estavam acostumadas. Eles, os jovens, estavam assistindo a um jogo em que dois deles disputavam um combate, um jogo do play station. Vendo a cena, voltei mentalmente ao meu tempo de juventude, no milênio passado, claro.

Minhas férias no litoral eram bem mais animadas, normalmente ficava em Torres, na casa da minha tia materna, ou em Imbé, onde veraneavam meus tios e primos paternos. Manhãs na praia até o meio-dia ou mais. Às tardes, enquanto os adultos dormiam em redes e cadeiras sob a sombra das árvores, após o almoço, nós saiamos a caminhar, ou ficávamos jogando vôlei. E a noite, como ainda éramos muito jovens para ir a casas noturnas de dança, ou a barzinhos a beira mar, fazíamos a nossa própria festa, ouvindo LPs da época, dançando na sala ou na varanda mesmo. Meu irmão tocava violão e eu cantava. Também inventávamos letras de música e passos de dança, imitando alguns dos filmes de John Travolta e Olívia Newton John, como “Nos Tempos da Brilhantina” e “Embalos de Sábado a Noite”, entre outros musicais. Quando chovia, o que não é nada raro no verão do litoral, jogávamos cartas, sempre com algum tipo de prenda, Lê-se hoje, “pagar mico” para quem perdesse. Era um tempo bom, de barulho, muita criatividade e alegria, sem as modernidades  como celulares, Playstation ou notebooks. Ainda hoje, quando visito minhas primas, relembramos aqueles momentos mágicos , que não voltam mais. Um amigo comentou, dia desses ,que sou excessivamente saudosista, mas como faz bem recordar bons momentos do passado. Percebo que a juventude de hoje, claro, existem exceções, não conhece a verdadeira essência de ser feliz sem essas modernidades, não conseguem sequer imaginar uma temporada de veraneio longe das redes sociais, dos celulares, dos jogos eletrônicos, dos Ipods, Ipads, Iphone, tablets e laptops…Conheço alguns jovens que nem sequer vão à praia, preferem ficar em frente ao computador enquanto o pessoal se diverte a beira  mar. Mas, como dizem , devemos sempre tentar conviver em harmonia com as diferenças, até mesmo as difíceis diferenças de idade e conflitos de gerações. Cada um que escolha como se divertir durante o veraneio no litoral, mas,”se beber,não dirija”. Feliz Ano Novo a todos os leitores!

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