O tempo e o vento

O tempo e o vento

Por Artur Pereira dos Santos

           

            A brilhantina  e outros fixadores de cabelo se notabilizaram rapidamente entre os jovens da época..

            A mulher do gerente de uma grande empresa, recentemente transferido para o litoral reclamava do endurecimento dos cabelos devido ao nordestão misturado com maresia, que soprava inclemente no litoral, principalmente no inverno.

            Reclamava com freqüência da dificuldade de pentear as longas madeixas de cabelos castanhos acostumados ao clima da Capital. Somente os nativos suportavam o desgrenhar de cada mecha cultivada com a dificuldade das mulheres dos trabalhadores da construção civil, cumulativamente ao trabalho da casa, onde, não raro, a própria gordura das mãos ajudavam a assentá-los sobre a cabeça

            Raras mulheres tinham afazeres diferenciados dos que se constituíam, do amanhecer ao anoitecer, os cuidados com a própria casa. Estas, ou não reclamavam por falta de tempo ou por solidariedade às conterrâneas.

            Ninguém encarava com boa vontade, entretanto, qualquer necessidade de dirigir-se à cidade vizinha, onde o vento, de qualquer quadrante que soprasse, era tido como insuportável,

            Chapéu na cabeça, preferencialmente apertado e com barbicacho, era a primeira recomendação para quem precisasse fazer alguma coisa na cidade que detinha praticamente todos os serviços públicos.

             No inverno ninguém ousava dirigir-se para lá sem um bom sobretudo, para resistir ao frio e ao vento encanado nas ruas de traçados retos, como convinha a uma cidade com razoável planejamento.

            Talvez pela inveja da população das demais ou com justificada razão era denominada, pejorativamente, a cidade do vento. Era alvo, inclusive, de frases ou versos que a denegriam.

            Ressalta-se que seus próprios moradores davam razão a essas atitudes. Eles também encontravam lá suas dificuldades para suportar o excesso de vento gerado pela conformação dos morros que constituem a serra do mar e as lagoas que a cercam.

            A mulher do gerente não suportou o nordestão e fez com que o esposo solicitasse transferência novamente para a capital, fazendo-o, talvez, perder uma boa promoção dentro da carreira que seguia.

            A cidade cresceu e o vento já não parece tão forte, talvez pelas edificações cada vez mais altas e compactadas na beira do mar.

            A cidade vizinha, Bem, essa foi bafejada pelos ventos do progresso e canalizou-os para quase uma centena de geradores de energia, que dão ao município uma invejável quantia em pagamento do uso de seus domínios.

            Seus moradores já não reclamam de qualquer aragem mais forte e o poder público, inteligentemente, adotou o slogan de a Cidade dos Bons Ventos.

            Hoje, os municípios vizinhos fazem verdadeiras filas nos portões dos órgãos governamentais, quase implorando o olhar de alguém com poderes para destinar-lhes um pouquinho de sorte, metade chegaria, para fazer a felicidade dos governantes e da população. Certamente seriam criados outros slogans e, em nome do progresso, os ventos mais fortes seriam ignorados e a inveja sepultada.

            Nunca o tempo e o vento andaram tão juntos na geração do progresso.

           

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