Fragmentos Literários
Sem comentario Lembranças, sonhos…o tempo…o vento…
Por Leda Saraiva Soares
Sentada na cadeira de balanço, tal qual Ana Terra de “O Tempo e o Vento”, obra do grande escritor gaúcho, Érico Veríssimo, Candinha embala sonhos e lembranças, misturadas à saudade de um tempo que a memória se empenha em não apagar.
Enquanto o vento nordeste brinca lá fora…
O relógio dourado, dependurado no centro da parede, sobre o grande espelho redondo, cercado por fotografias, marca o tempo que vai registrando a história da família. O espelho que já se integrara à parede, reflete imagens muito antigas e também as mais modernas, desafiando a memória da velha Cândida. Cobrindo a parede de tijolos à vista, lá estão muitas fotografias emolduradas, entre, elas algumas daqueles que já se foram e fitam os olhos de Candinha, no vai e vem do balanço contínuo de sua cadeira.
Os filhos, netos e noras, imagens coloridas, estão ali emolduradas ao redor do relógio que, implacável, vai marcando cada minuto que passa.
O silêncio daquele momento a envolve. As imagens deixam as molduras, vêm até ela e passeiam pela sala feito fantasmas.
O relógio moderno não tem o “tic-tac” dos antigos, nem marca as horas com as constantes badaladas sonoras. Mas não deixa escapar um minuto!…
Tantas lembranças!… O silêncio que reina na sala leva Candinha a um cochilo. Vê-se meio a uma festa que reúne toda a família. Uns tocam violão… Outros cantam… Outros conversam… As crianças correm fazendo uma algazarra que só elas sabem fazer. O chimarrão passa de mão em mão. As conversas se misturam. Vai sair um almoço daqueles! É preciso dar volume à voz para se fazer ouvir. Ela administra tudo com sua determinação e vivacidade. Vem o sobressalto. Acorda-se com seu próprio ronco.
A saudade aumenta e lembranças de um tempo chegam até sua alma: Por onde andará meu marido? Quanto tempo?
Meus filhos e minhas noras são maravilhosos, meus netos e netas nem se fala!… São carinhosos comigo. Nada me falta. Mas… Como é difícil viver sozinha sem aquela cumplicidade única que os casais que se amam desfrutam!…”
E os reveses que a vida lhe aprontara? Candinha começa a filosofar:
Por que sofremos? Agora, com a idade avançada, no acalanto adulto e maduro de sua cadeira de balanço, longe da situação vivida, diante de seus olhos passa o teatro de sua vida. Só agora consegue analisar melhor as causas do sofrimento. Só agora começa a entender melhor: “É preciso administrar o orgulho, o preconceito, a falta de humildade, o rancor, o amor próprio, os princípios, a falta de simplicidade… A aceitação do outro como ele é. Mesmo sem entendê-lo, não podemos deixar de amá-lo. Não podemos julgar. Não sabemos o que o levou a agir do modo como age. É preciso conviver e administrar as diferenças. Orar muito. Vencer as barreiras do orgulho que nos aprisionam e não nos deixam falar com o coração. Em especial, trabalhar o diálogo. Complica-se demais a vida. Às vezes uma atitude, uma iniciativa, uma palavra, um gesto amoroso anulam o ressentimento, levam ao perdão. Este gesto simplificaria anos de sofrimento que afastam as pessoas que mais amamos de nosso convívio familiar ou social. Quanta perda de tempo!…”
E os sonhos? Será proibido sonhar?
Candinha sempre sonhou. Sempre acalantou sonhos em seu coração e lutou por eles. Nunca desistiu de seus sonhos. Mesmo que ninguém acreditasse neles. O importante é que ela acreditava. Lutava dentro das suas limitações, uma luta silenciosa, constante, dentro do seu tempo. E lá vinham as conquistas!… Nunca permitiu que alguém matasse seus sonhos. Isso acabaria com sua autoestima. E se lembrou do grande poeta Fernando Pessoa: “ Matar o sonho é matar-nos. É mutilar nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.”
E o vai e vem da cadeira de balanço embala as lembranças e os sonhos de Candinha, enquanto o tempo vai passando, levado pelo vento…