Conversa no telefone

 Conversa no telefone

Por Suely Braga

O telefone tocou no escritório. A jovem secretária, elegante, no seu bleiser rosado e minissaia, deixando à mostra um par de belas pernas, atendeu.

-É para você Dona Marisa.

-Quem é Márcia?

-É aquela sua amiga, Dona Marlene.

Marisa afasta os papéis que tem à frente e pega o fone.

-Alô! Marlene?

Do outro lado da linha, a voz melosa de Marlene:

-Marisa, querida! Queres ir ao shopping comigo hoje à tarde?

-Marlene, tenho muito trabalho. Preciso despachar uns processos urgentes.

-Ah! Amiga! No fim do expediente. Necessito fazer umas compras. Gostaria de tua companhia-Marlene fala insistente.

-Vais fazer compras? Gastar? Olha a queda das Bolsas.

-Ah! Bem lembrado. Vou mesmo comprar uma bolsa. Preciso de uma bolsa social bem bonita.

-Não, menina. Estou falando das Bolsas de Valores. Por acaso não lês jornais  ? Não acompanhas as notícias?

Marlene com voz incrédula:

-Não tenho lido jornais. Só publicam tragédias. Fico nervosa. Na televisão só vejo as novelas.

Marisa já começando a se irritar.

-É, mas devemos nos informar saber tudo o que afeta nossa vida.

-Nossa vida diária, Marisa? Como? Não estou entendendo nada.

Marisa afastando um pouco o fone resmunga: analfabeta.

-O Beto?  O que tem ele? O Beto está bem.

 

-Não, Marlene deixa pra lá.

-O que tem a ver a queda das Bolsas com as minhas compras?

Era demais.

-Marlene presta atenção! Os juros subiram. Os juros dos cheques especiais, dos cartões de créditos das prestações. Isto tem muito a ver com tuas compras. Sim

-Não tem importância. Vou Fazer minhas compras hoje. Que tal no fim da tarde?

Preciso que me acompanhes, falou Marlene com voz suplicante.

-Combinado No fim da tarde, lá pelas dezoito horas te encontro no Praia de Belas.

 -No Praia de Belas não. No Iguatemi. Dizem que está maravilhoso depois da reforma.

 -Iguatemi!? Certo. Agora vou desligar. Meu trabalho me espera.

– Trabalhar… trabalhar…. trabalho demais faz mal. Precisas te divertir.

– Até logo, Marlene. Um abraço.

Marisa largou o fone com força vermelha de raiva.

-Ignorância tem limite – exclamou fora de si.

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