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maio 29, 2015 - Textos históricos   

Torres, 137 anos

TORRES – 137 ANOS I

Por Nelson Adams Filho – Jornalista e pesquisador

21 de Maio, através da Lei nº 1.152 assinada pelo presidente da Província, Américo de Moura Andrade, marca o aniversário de nascimento do município de São Domingos das Torres, emancipado de Osório em 1878 (que por sua vez emancipou-se de Santo Antônio da Patrulha em 1857). Apesar do longo tempo e de Torres ser um dos municípios mais antigos do Rio Grande do Sul, a história desse momento é pouco estudada e pesquisada. Basicamente o que se conhece tem origem nas pesquisas do professor e historiador Ruy Ruben Ruschel, especialmente no livro “Torres Origens” editado em 1995 pelo jornal Gazeta (edição esgotada). Ruschel aborda mais a questão política de emancipação. E inclusive o duplo nascimento do município (em 1878 e depois em 23 de janeiro de 1890, pois em 1887 o município havia sido extinto no período em que o Brasil era governado pelo Barão de Cotegipe, do Partido Conservador).

Mas há muitas lacunas a serem preenchidas nessa história. Especialmente nos motivos que levaram à emancipação, que foram de ordem econômica, e sobre as personagens envolvidas. Fica em aberto esse desafio para os historiadores e pesquisadores, inclusive eu.
As razões para emancipação foram econômicas. Osório e Torres, que pertenciam geográfica e administrativamente a Santo Antônio da Patrulha (criado em 1811), tinham economia maior e mais forte que a “mãe”. Cachaça, melado, rapadura, mandioca e outros produtos agrícolas eram o forte de Osório e Torres, além da mão-de-obra açoriana e alemã (dos alemães que aqui chegaram a partir de 1826). Portanto, temos emancipações com origem econômica e não por disputa de terras, de poder ou de domínio político como eram características da época. Basicamente o mesmo ciclo que se daria depois, a partir de 1985/88, com os “filhos de Torres” – Arroio do Sal, Três Cachoeiras, Três Forquilhas, Morrinhos do Sul, Dom Pedro de Alcântara e Mampituba.

Razões também de ordem econômica e social levaram essas comunidades a assumirem o destino com as próprias mãos. Encararam o desafio, suplantaram barreiras políticas (de políticos que mantinham “currais eleitorais” nessas localidades) e administrativas e fizeram-se municípios. Bem diferente da Vila São João que tem todas essas qualidades mas “perdeu o trem da história” basicamente por interesses políticos localizados.

Já desde 1847 lideranças do distrito de N.S. da Conceição do Arroio (Osório) animavam-se a tentar a emancipação, junto com Torres.  Alegavam que juntos (Osório, Torres, Maquiné, Palmares do Sul) poderiam resolver suas dificuldades com o governo da Província sem ter que passar pela Câmara de Sto. Antônio da Patrulha.

Nesse ano, porém, um incisivo discurso do deputado Santa Bárbara, na Assembléia Provincial, pôs fim às tentativas. Segundo o deputado, (mantida a grafia da época) “essa povoação [Osório] he muito miserável, não tem a população para ministrar quinze meninos aos estudos de primeiras letras; consta que sua escola foi transferida para outra parte. Ora, sendo assim, como haverá quem preencha as funções de vereadores da camara municipal e outras?”

Em 1854 a notícia da existência de cobre, prata e carvão de pedra na costa do Mampituba reacendeu os debates sobre a emancipação da região e a ligação das lagoas como meio de escoar a produção agrícola, já que as estradas inexistiam ou eram precárias. Em 17 de dezembro de 1857 Conceição do Arroio conseguiu finalmente emancipar-se, levando junto a área de São Domingos das Torres. 21 anos depois Torres se emanciparia.

Antes disso, porém, já em 1859, Torres tentaria desligar-se de Osório. Torres era abundante em riquezas naturais, conforme “Estatística Geográfica, Natural e Civil da Freguesia de São Domingos das Torres” enviada pelo presidente da Câmara de Conceição do Arroio ao Governo da Província: abundância em madeiras de construção; boa quantidade de madeiras de marcenaria; 453 estabelecimentos agrícolas que cultivavam cana, aguardente (produção anual de 451 pipas), açúcar (1.616 arrobas), rapadura (50 mil unidades), mandioca (10.700 alqueires), feijão (1.461 alqueires), milho (1859); trigo, centeio, cevada, arroz (640), batata, fumo (90 arrobas), café (200 arrobas) e favas; valor da terras por braça (1,88 metro) de 8 réis; grande quantidade de bois,carroças e bestas; 3 fornos de cal, 21 engenhos de açúcar, 100 de mandioca, 56 “fábricas” de moer grão, 291 fazendas [propriedades rurais]e 4.105 animais.

Na área do transporte havia 400 carretas de boi, 1 lanchão “de coberta”, 3 sem “coberta” e 100 canoas. Entre os artesãos e técnicos, 8 artes e ferrarias; 7 carpintarias; 2 marcenarias; 1 tanoaria; 9 sapatarias; 5 alfaiates; 4 ourives; 1 tamancaria;  28 “lombilheiros”, além de outros produtores rurais, comerciantes, tropeiros, freteiros e população em geral.

A Câmara de Conceição do Arroio, como era de se esperar, rechaçou a tentativa sob a alegação principal de que não haveria em Torres cidadãos capazes de assumir cargos públicos, como subdelegado, por exemplo, e, portanto, sem autoridade policial para as atividades, o que, por esse aspecto, inviabilizava a emancipação.

Fontes: Torres Origens – Ruy Ruben Ruschel/Edição Gazeta esgotada; Correspondência da Câmara Municipal de Conceição do Arroio/1859 AHRS; Raízes de Torres 1995 – Historiadora Vera Lúcia Maciel Barroso Relações Litorâneas de Santo Antônio da Patrulha a Torres 1809/1857 – Arquivos da Câmara Municipal de Santo Antônio da Patrulha 1854/57; Anais da Assembléia Legislativa do RS/1847

TORRES – 137 ANOS II

Por Nelson Adams Filho – Jornalista e pesquisador

Em sequencia ao artigo publicado na edição anterior sobre os 137 anos do município de São Domingos das Torres, analisamos agora as personagens que fizeram parte desse processo. São várias e ainda não devidamente pesquisadas pelos historiadores e pesquisadores. Começamos por 1859, dois anos após a emancipação de Osório, quando Torres tenta desmembrar-se de Conceição do Arroio. Nesse período aparecem os nomes de Hipólito Antônio Rolim, Juiz de Paz na Freguesia, de José de Lemos Terra, sesmeiro da região de Chimarrão (futuro município de Três Cachoeiras) e suplente de vereador; Ricardo e Caetano Ferreira Porto, filhos do alferes Manoel Ferreira Porto, Tomaz Teixeira da Rosa, Tomaz Francisco Ferreira. Esses quatro faziam parte da Comissão constituída para tocar as obras de reparos nas Igreja de São Domingos e eram lideranças locais.

Nesse período – 1857/58 – a Igreja teve 2 padres que podem também ter participado dos primeiros movimentos pela emancipação: padre Carvalho (que depois transferiu-se para Porto Alegre) e padre Blaz Puerta Rodrigues, um espanhol. Outros padres que pode ter-se envolvido no movimento de emancipação foram os italianos Francisco Rosito Moranno, que permaneceu em Torres até 1872; José Antonio Fazzi até 1877. A Irmandade do Santíssimo Sacramento e São Domingos tinha em sua Mesa outras lideranças locais que certamente participaram do movimento.  Caetano Carlos Glunder, Antonio Francisco de Emerin, José Teodoro Nunes e Oliveira, Antônio Ferreira Porto.

Como vimos no Capítulo anterior, Osório fulminou a intenção de Torres de emancipar-se em 1857 sob a alegação de que a freguesia não tinha homens capazes de assumir uma subdelegacia e uma autoridade policial. Osório queria que Torres continuasse dependente dela e entregando a ela parte de sua riqueza econômica.

A emancipação, como se sabe, ocorreu em 21 de maio de 1878. O tenente coronel da Guarda Nacional Manoel Fortunato de Souza, do Partido Liberal, foi a principal liderança nesse período e processo, embora não se tenha maiores e mais aprofundadas pesquisas. Ele assumiu a presidência da Junta Governativa (a atual Câmara de Vereadores e que à época fazia as funções da Prefeitura)  em 22 de fevereiro de 1879. Em 1887 o município de Torres foi extinto quando o Brasil era governador pelo gabinete do Barão do Cotegipe, do Partido Conservador. Com a proclamação da República o ato da extinção do município de Torres foi reconsiderado e já em 23 de janeiro de 1890, 2 meses após a República, o município voltava a existir.

Passa a atuar no cenário torrense o jovem Álvaro Afonso Pereira, mais tarde conhecido como “Capa Verde” (atualmente Capaverde) justamente por usar um enorme capotão verde. Ele era natural de São José do Norte e chegou jovem a Torres. Era telegrafista e parece ter-se indisposto com as lideranças locais, já que era do Partido Republicano. Através de pesquisas sabe-se que Capaverde foi para Porto Alegre e lá desligou-se dos Correios e Telégrafos (que era uma atividade importante e bem remunerada á época)., Certamente deve ter-se acercado a Júlio de Castilhos, chefe Republicano, e suas lideranças, pois em 2 de fevereiro de 1890 instalava-se uma nova Junta Governativa Provisória e Álvaro Afonso Pereira Capaverde a presidia. Dela fazia parte ainda Henrique André Muller e Francisco Antônio Rolim, outros dois nomes que certamente fizeram parte do processo de emancipação de 1878.

Entre 1890 e 1892 várias outras pessoas fizeram parte de Juntas Governativas de Torres. Eram lideranças e poderiam ter-se envolvido com a emancipação. O escrivão Jacó Gayer Ourives, presidente da Junta em 1891; Quintiliano Raupp em 1892; Luiz Bauer também em 1892; os membros do primeiro Conselho Municipal: o professor Teodoro Pacheco de Freitas (pai do coronel Pacheco), Manoel José Maria dos Santos, João Amaro Pereira, Manoel José de Matos Pereira, Pedro Pacheco dos Santos, Timóteo da Silva Bueno e José Jacó Tietboehl. Muitos deles são homenageados com seus nomes em ruas, avenidas e praças em Torres        

São algumas dos lideres políticos, militares e até eclesiásticos de Torres à época das duas emancipações, em 1878 e 1890/92.  Teria que se estudar mais sobre a procedência, a vida e o destino desses homens para se ter, então, uma visão completa desse período tão importante do nascedouro político-administrativo do município de São Domingos das Torres.

Fonte: Torres Origens, de Ruy Ruben Ruschel, edição Gazeta 1995/esgotada; correspondência da Câmara Municipal de Conceição do Arroio de 18 1857 em 1858/AHRS; A Vida Religiosa da Grande Torres, de Rizzieri Delai, Raízes de Torres 1995

maio 25, 2015 - Poemas   

A felicidade

Por Suely Braga

Procuro e encontro.
Vejo e enxergo.
No sol radiante.
Nas estrelas brilhantes.
No céu enluarado.
No viço das flores perfumadas.
Nas árvores verdejantes.
Nas cascatas borbulhantes.
No gorgeio da passarada.
Na alegria das crianças.
Na ternura de uma mãe acariciando o filho.
Na esperança dos jovens
em busca de novos caminhos.
Na descoberta das ciências e das tecnologias.
Na arte, na música e na poesia.
Nos seres da criação.
Na vida bem vivida.
Percebo que tudos é felicidade.
A felicidade é feita de momentos.
Uns duradouros, outros fugidios.
A felicidade não é eterna.
A felicidade está dentro de cada um de nós.

Osório, 20/03/2015.

maio 6, 2015 - Poemas   

Sem resposta

Por Evanise G. Bossle -03/05/2015

Como não ouvir ou não ver
Tudo que está acontecendo pelo mundo,
Tsunamis, vendavais, ciclones, terremotos,
Mortes, mortes…
Acidentes, assassinatos, atentados,
Desastres aéreos, triste fim de vidas
Um sem número de vidas.
Como não pensar, não lembrar, não se emocionar,
Não chorar???
E nos perguntamos, sem respostas,
Quando e onde isso vai parar???
Sem respostas, nada mais a declarar!

abr 15, 2015 - Contos   

Conto Feliz Ano Novo!

Por Leda Saraiva

Era dia trinta e um de dezembro.

Grandes preparativos após um dia de intenso trabalho. Reunião na casa de um dos filhos com alguns comes e bebes, rapidamente, preparados para depois assistirem à queima de fogos na praia de Tramandaí.No ar uma euforia. O entusiasmo da família reunida saia pelas janelas.A noite estava perfeita.Era uma sensação de iminente liberdade a deixar para trás contrariedades que ficariam para sempre com o Ano Velho que agonizava. Cadeiras de praia, caixas de isopor à espera de um “vamos lá, minha gente!”. Teriam que se apressar para conseguirem um bom lugar na praia.

-Vamos! Depressa! – dizia Antônia. As crianças não vão.As crianças ficam. É muita gente na praia.

Por decreto, ficou decidido que naquela passagem de ano, os netos ficariam conosco. É evidente que não desejavam nos acompanhar. Mostraram resistência.Mas estava decidido. A contrariedade estampava-se em seus rostos. Eu fiz de conta que nada percebera.Pensei: “O que posso fazer com essas crianças contrariadas? E agora? Como proporcionar-lhes momentos interessantes?

Entraram no carro a contragosto.

– Vó, onde é que nós vamos? – pergunta Carlinhos um tanto indiferente, atirado displicentemente no banco do automóvel.

-Ah! Hoje nós vamos visitar Netuno na praia de Imbé.

-Quem é Netuno, é algum amigo de vocês que não conhecemos, vó? – pergunta Maristela meio sem graça.

-Netuno é o deus dos mares. Ele tem um palácio poderoso no fundo do mar Egeu…

-Vó, onde fica o mar Egeu?- curiosa manifesta-se Suzete.

-O mar Egeu fica na Grécia. Netuno é um Deus grego. Mas como eu estava dizendo, ele mora num palácio no fundo do mar Egeu e percorre os oceanos numa carruagem belíssima, puxada por cavalos com cabeças e crinas de ouro. É acompanhado por uma comitiva de milhares de nereidas, hipocampos, delfins e outros bichos mais. Quando ele passa, o mar se abre. As ondas serenam.

-Vó, que é nereida e essas coisas que tu falaste? – perguntou Maristela.

-Nereida é uma ninfa, uma divindade, uma moça belíssima, parece uma fada; Hipocampo é cavalo marinho. Já viste um cavalo marinho?

-Vi. Lá no CECLIMAR, num aquário. –  respondeu.

-Pois então. Delfins são golfinhos, botos. Vocês já viram os botos na barra do rio Tramandaí?

-Ah! Agora entendi. E daí, vó? Conta, conta… – manifesta-se Maristela.

– Netuno tem uma barba muito longa. Mais longa que a barba do Papai Noel. Na mão direita, costuma empunhar um tridente.

-Que é tridente, vó? – pergunta Daniela, a menor.  E Maristela responde:

-Ô, guria. Tu não sabes o que é tridente? É uma coisa parecida com um garfo enorme. Tem três dentes. Uma vara com três espetos na ponta. Nunca viu o tridente do diabo?

-Tá…tá… tá… Já entendi.

– Bem. Tridente é uma espécie de cetro mitológico de Netuno. Vocês já viram nas histórias que leram. Todo rei tem um cetro. O cetro representa poder. O tridente de Netuno, conforme a mitologia,tem o poder de abalar a terra e o oceano, produzindo terremotos e maremotos, mas também pode fazer a água brotar das rochas e do solo. Traz as grandes secas e as grandes inundações.

– Puxa vida! Então é poderoso esse tal de Netuno! E anda solto pelo mundo. – diz Carlinhos, o mais velho.

-Vó, quem eram os pais de Netuno? – pergunta Suzete.

-Netuno é o filho mais velho da deusa Ops (deusa da fertilidade) e de Saturno (deus do tempo e da agricultura). De acordo com a mitologia, Netuno cavalga nas ondas do mar em cima de cavalos brancos.

-Chegamos, minha gente!  Vamos estacionar o carro e descer.

-Ai vó, eu tô com medo do velho Netuno -fala Daniela

-Desçam! Rápido! Daqui a pouco é meia noite e nós ainda estamos aqui dentro do carro. Deem as mãos. Está meio escuro. Procurem não se perder.

Os quiosques estavam literalmente tomados de gente. O vento resolvera recolher-se naquela noite em que o Ano Velho daria lugar ao Ano Novo.

 Seria uma boa ação de Netuno?

À medida que nos aproximávamos da praia de Imbé, o movimento aumentava. Era gente que chegava com cadeiras de praia, caixas de isopor carregadas de bebidas, crianças ao colo, crianças levadas pela mão, crianças em carrinhos de bebês.

A lua estava discreta. Algumas nuvens no céu a encobriam para que não tirasse o brilho dos fogos. Na barra, mar e rio entendiam-se: o mar entrava no rio, e este procurava chegar ao mar sem atrapalhá-lo. Era uma troca de gentilezas.

As crianças nunca haviam estado na praia à noite. Para elas era uma novidade.

-Vô, que horas são? – pergunta Carlinhos.

-Faltam cinco minutos para a meia noite.

Sem perder as crianças de vista, aproximamo-nos do mar.Alguns foguetes espocavam aqui e acolá.

Carlinhos, o mais atrevido, demonstrando coragem, entrou no mar e deu não sei quantos pulos nas ondas que chegavam a seus pés. Disse que dava sorte.

É Chegada a hora tão especial. Os ponteiros estão um sobre o outro. Diz o avô

-É meia noite! – Gritam as crianças.

De repente, se desencadeia uma sequência de fogos. O céu enche-se de ruídos e de luzes, proporcionando-nos um espetáculo visual magnífico.Nessa hora, entre gritos, músicas e espocar de foguetes, abraçamo-nos. Então, olhamos para o mar.Fixamos nosso olhar no horizonte, onde céu e mar parecem encontrar-se. Nesse momento, um daqueles fogos de artifício eclode na direção onde o sol costuma nascer. Abraçados,  com a água batendo em nossos pés, vivenciamos um momento de sonho, diante das mais belas formas e cores dos fogos de artifício. Pura magia no meio da noite.Uma voz que parece vir da profundeza das águas, mistura-se aos ruídos:

-Vô, vó, guris, olhem! Lá está o Netuno! Estão vendo?

E foram tantos abraços, tantos beijos meio a felicitações:

Feliz ano Novo! … Feliz Ano Novo!…

abr 15, 2015 - Contos   

Conto Uma tarde de domingo

Por Leda Saraiva*

Diversas pedras circulares, medindo uns oitenta centímetros de diâmetro, incrustadas ao nível do gramado,distribuíam-se ao redor da Caixa d’água de Imbé. Era ali que brincávamos de “Tem Casa pra Alugar?”

Cada criança se colocava sobre uma pedra. No imaginário infantil, cada pedra se transformava em casa. Um dos participantes da brincadeira ficava de fora e percorria o grupo perguntando:

-Tem casa pra alugar?

As outras crianças respondiam, quando perguntadas:

– Não. Passe outro dia.

Na distração daquele que procurava casa para alugar, alguns trocavam rapidamente de lugar,uns com os outros. Era nessa hora de certa confusão que os mais lentos se perdiam e o que perguntava, ocupava o lugar do distraído. O que perdeu o seu lugar passava a perguntar: “Tem casa pra alugar?” E a brincadeira se estendia pela tarde de primavera. Assim, nos divertíamos por algum tempoem volta da Caixa d’água de Imbé.

Esse reservatório de água localizava-se defronte a Igreja Nossa Senhora de Fátima, sobre o canteiro da Avenida Porto Alegre. Hoje, restam os alicerces que testemunham, num silêncio secreto, nossas brincadeiras e visitas àquele lugar.

Meu avô era nosso companheiro. Um avô alegre brincalhão. Andávamos sempre à sua volta. Morávamos em Tramandaí. Aos domingos, costumava passear conosco.  Muitas vezes,atravessamos a velha ponte de madeira para chegar a Imbé. Nessa época, Imbé era um bairro nobre de Tramandaí, predominantemente, habitado por veranistas. No inverno, era só nosso.Era o nosso parque de diversão. Virava um paraíso a ser explorado por nós, crianças curiosas a buscar novidades em suas ruas, verdadeiros labirintos.

 Procurávamos ninhos de quero-quero. Dizem que o quero-quero canta de um lado e o ninho está em outro. Naquela tarde,meio à grama, achamos um ovo partido com um passarinho ainda em formação, agonizando, com aqueles olhos enormes, envoltos numa película leitosa. Naquele instante, aquele frágil corpo parou de se mexer.Foi a nossa primeira experiência com a morte dentro de um ovo. Ficamos observando aquele projeto de pássaro, implume ainda, e sem vida. Por alguns segundos,permanecemos calados diante do mistério da ausência de vida.

Que belo pássaro é o quero-quero! Imponente por sua postura e altivez. É destemido. Está sempre alerta como uma sentinela. O quero-quero é a “Sentinela dos Pampas”, um dos símbolos do Rio Grande do Sul. A beleza de suas penas encanta.Parece uma pintura. Mas Cuidado! É defensor de seu território. Se alguém se aproxima de seu ninho ou de seus filhotes, ataca o invasor com rasantes assustadores, podendo ferir o intruso com os esporões que traz em suas asas.

Depois de admirar um quero-quero que se aproximou de nós, voltamos a observar aquele minúsculo passarinho que não vingou. Um esboço de ave, sem vida, que poderia transformar-se numa espécie belíssima. Só então, nos demos conta de que nosso avô já se distanciara de nós, caminhando com as mãos às costas – era esse o seu jeito de caminhar. Devolvemos o bichinho à grama e corremos em sua direção,apostando corrida para ver quem chegava primeiro.

O meu irmão mais velho era nosso líder.Chamava nossa atenção para o que encontrava de curioso. Corria muito. Distanciara-se de nós. Parou na frente de duas casas geminadas,inteiramente de pedras.Chamou-nos gritando:

– Venham aqui. Ligeiro! Venham ver estas duas casas.

Paramos para observá-las. E ele falou:

-Estas duas casas parecem tão frias… Geladas… Ui…Misteriosas… Mal-assombradas…Parece que estão cheias de fantasmas. Vocês estão ouvindo ruídos estranhos que vêm de dentro delas?

Paralisados de medo, olhos arregalados, ouvidos aguçados.Já estávamos ouvindo os barulhos dos fantasmas a conversarem dentro da casa.Até parecia que objetos voavam e explodiam nas paredes, quando, surpreendentemente, nosso irmão deu um grito fantasmagórico:

 UUUUUUUUUUUUUUUUUUU!…Buáááááááá´!…

Quase desmaiamos. A cor fugiu de nossos rostos. Ficamos algum tempo paralisados, presos ao solo. Com o coração aos pulos, horrorizados, saíamos em disparada, sem olhar para trás. Sabe-se lá… E se algum fantasma resolvesse nos perseguir?…Corremos muito até alcançar o nosso avô que já havia ultrapassado o imponente prédio do Hotel – Cassino Picoral.

 O vento começara a soprar e corria rápido pelas antigas ruas curvas do centro antigo de Imbé que sempre nos enganavam. Apontavam para um lado e nos levavam para outro.

À nossa direita, estava o rio. Silencioso, livro fechado, coberto de limo e de lama,envolto em mistérios, guardando histórias de vidas e lendas que passavam de geração em geração no antigo povoado:A lenda do Minhocão da Lagoa do Armazém; A lenda do Siri, do Linguado e da Savelha. Lembram-se do siri que atravessou o rio,com Nossa Senhora em suas costas?  A lenda da abertura da Barra. Os causos de lobisomem, de bruxas e assombrações… Esse rio é um guardião da história. Guarda a vida dos primeiros pescadores, senhores das águas e dos ventos, sábios conhecedores da natureza. Homens de fé que, no dia a dia, tiravam de suas generosas águas o sustento de suas famílias.

Em determinadas noites, a lua resolvia recolher-se para descansar atrás das grossas nuvens. A escuridão,revestida de vento, envolvia os ranchos dos pescadores, iluminados pela fraca luz das pixiricas e candeeiros. A lenha verde chorava no rústico fogão que cozinhava, sem pressa, o ensopado de peixe e o pirão de farinha de mandioca. O cheiro do fervido espalhava-se pelo rancho, saindo pelas frestas, misturando-se ao vento.

O tempo e o vento corriam de mãos dadas na praia de Imbé a brincar nas águas do rio e a se embalar nas ondas do mar.

A vida era difícil para aquelas famílias sem recurso algum. Gente que seu nia na alegria, na dor, na doença, sempre solidários. Sua história ficará para sempre guardada nas águas do rio silencioso, outrora tão pleno de vida. Atualmente, um tanto ignorado pela população, a esperar que um dia lhe devolvam a vitalidade.

Hoje, quando atravesso a ponte Giuseppe Garibaldi, não me canso de admirar o rio Tramandaí e vejo cristalizada em suas águas, como a acenar para mim, toda a história que não se mostra para aqueles que a desconhecem.

-Crianças! Venham!- grita meu avô -Chegou o grande momento de atravessarmos a ponte pênsil. Agora eu quero ver quem é valente…

* Conto enviado para o I Concurso de Contos de Imbé, em 23/10/2014.
Classificado em 5ºlugar.

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