O Esquilador
Por Artur P. dos Santos
“As tesouras cortam em um só compasso
enrijecendo o braço do esquilador”.
Também roubaste galinhas? Era a pergunta comum quando alguém aparecia de cabeça raspada na pequena cidade, onde todos conheciam todos. Tudo por conta de alguns rapazes que tentaram surrupiar algumas penosas para festejar o aniversário de um deles e foram pegos em flagrante e levados até a autoridade policial,
O delegado da época sabia que não era caso extremo. Aquilo não passava de arroubo de jovens e determinou que todos tivessem a cabeça raspada, como punição..
Enquanto isso o cabelo do rapazote continuava espetado. Sentia vontade de raspá-lo, quem sabe ao crescer viesse diferente. Talvez com a possibilidade de armação daquele topete que tanto admirava nos mocinhos dos filmes que assistia aos domingos no único cinema da cidade. Faltava-lhe, entretanto, coragem para enfrentar a gozação dos amigos.
À medida que o tempo passava, seu cabelo tomou outra forma, dificultando-lhe a manutenção sobre a cabeça quando o nordeste soprava mais forte. Depois veio a necessidade de reparti-los para fechar a clareira que se acentuava no ponto mais alto de sua mediana estatura.
Os anos passaram, A cidade cresceu. Seus habitantes eram outros. Talvez ninguém mais lembrasse do episódio das galinhas e ele voltou a pensar em raspar a cabeça. Já não sentia constrangimento e aprendera a assimilar todas as observações feitas sobre o avançado espaço sem cabelos no mesmo lugar que antes tentava esconder.
Sentou-se na cadeira do salão de costume e foi apresentado ao responsável pelo corte daquele dia. Era véspera de natal e estava disposto a raspar a cabeça antes de passar alguns dias no litoral.
Não era o mesmo profissional que conhecia. Era novo no estabelecimento e ele tratou de questioná-lo sobre a habilidade que possuía.
À medida que ia sendo informado do currículo, foi criando coragem para pedir que passasse a máquina número três, Avaliaria e, se gostasse, passaria para a de número dois. Afinal, foi informado de que o homem tinha trinta e quatro anos de idade, dez como profissional no corte de cabelos, trabalhando em um salão com seu pai, com quem aprendera tudo.. E mais, dos dezenove aos vinte e quatro havia trabalhado na tosquia de ovelhas na fronteira gaúcha. Podia confiar.