Poemas
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Poemas
Poemas Por Delalves Costa
O cheiro das tardes…
As velhas árvores…
A cigarra de canto boitempo¹
– em cartaz
faz alguns verões a lapidar a noite
com sua algazarra.
A praça nunca foi outra,
nunca foi outra, a praça.
Mais pedras e concreto
é que cantam charme!…
Charme?… Concreto?…
– Essas pedras pensam?…
(oh jornal de notícia órfã!)…
Mas as árvores são as mesmas…
as tardes de familiar aroma…
– O que mudou, então?
Talvez… apenas a sombra…
com algumas folhas a menos…
Poemas Maria e José
Por Delalves Costa
Acordam às seis quando não antes
José e sua impessoal Família.
Escovam o amargor do sono,
gargarejam o pesadelo
e penteiam o espreguiçar
de noites; mal-dormidos…
Vestia jejum, ainda, desconjuntado
– no rosto leite coalhado
no cabelo pão esmigalhado
e bocejo sol requentado
José e sua Família, nesse dia
sem o horário marcado!
O trabalho ficou no centro,
fechada no livro, a escola
no bolso furado, o mercado
e o almoço foi em família.
Neste dia, José se ajoelhou.
Maria, de oito semanas,
– antes da boca, bem servida
entre an(seios, incontida), engravidou.
Crônicas, Fragmentos Literários Conversa no telefone
Por Suely Braga
O telefone tocou no escritório. A jovem secretária, elegante, no seu bleiser rosado e minissaia, deixando à mostra um par de belas pernas, atendeu.
-É para você Dona Marisa.
-Quem é Márcia?
-É aquela sua amiga, Dona Marlene.
Marisa afasta os papéis que tem à frente e pega o fone.
-Alô! Marlene?
Do outro lado da linha, a voz melosa de Marlene:
-Marisa, querida! Queres ir ao shopping comigo hoje à tarde?
-Marlene, tenho muito trabalho. Preciso despachar uns processos urgentes.
-Ah! Amiga! No fim do expediente. Necessito fazer umas compras. Gostaria de tua companhia-Marlene fala insistente.
-Vais fazer compras? Gastar? Olha a queda das Bolsas.
-Ah! Bem lembrado. Vou mesmo comprar uma bolsa. Preciso de uma bolsa social bem bonita.
-Não, menina. Estou falando das Bolsas de Valores. Por acaso não lês jornais ? Não acompanhas as notícias?
Marlene com voz incrédula:
-Não tenho lido jornais. Só publicam tragédias. Fico nervosa. Na televisão só vejo as novelas.
Marisa já começando a se irritar.
-É, mas devemos nos informar saber tudo o que afeta nossa vida.
-Nossa vida diária, Marisa? Como? Não estou entendendo nada.
Marisa afastando um pouco o fone resmunga: analfabeta.
-O Beto? O que tem ele? O Beto está bem.
-Não, Marlene deixa pra lá.
-O que tem a ver a queda das Bolsas com as minhas compras?
Era demais.
-Marlene presta atenção! Os juros subiram. Os juros dos cheques especiais, dos cartões de créditos das prestações. Isto tem muito a ver com tuas compras. Sim
-Não tem importância. Vou Fazer minhas compras hoje. Que tal no fim da tarde?
Preciso que me acompanhes, falou Marlene com voz suplicante.
-Combinado No fim da tarde, lá pelas dezoito horas te encontro no Praia de Belas.
-No Praia de Belas não. No Iguatemi. Dizem que está maravilhoso depois da reforma.
-Iguatemi!? Certo. Agora vou desligar. Meu trabalho me espera.
– Trabalhar… trabalhar…. trabalho demais faz mal. Precisas te divertir.
– Até logo, Marlene. Um abraço.
Marisa largou o fone com força vermelha de raiva.
-Ignorância tem limite – exclamou fora de si.
Contos, Fragmentos Literários O tempo e o vento
Por Artur Pereira dos Santos
A brilhantina e outros fixadores de cabelo se notabilizaram rapidamente entre os jovens da época..
A mulher do gerente de uma grande empresa, recentemente transferido para o litoral reclamava do endurecimento dos cabelos devido ao nordestão misturado com maresia, que soprava inclemente no litoral, principalmente no inverno.
Reclamava com freqüência da dificuldade de pentear as longas madeixas de cabelos castanhos acostumados ao clima da Capital. Somente os nativos suportavam o desgrenhar de cada mecha cultivada com a dificuldade das mulheres dos trabalhadores da construção civil, cumulativamente ao trabalho da casa, onde, não raro, a própria gordura das mãos ajudavam a assentá-los sobre a cabeça
Raras mulheres tinham afazeres diferenciados dos que se constituíam, do amanhecer ao anoitecer, os cuidados com a própria casa. Estas, ou não reclamavam por falta de tempo ou por solidariedade às conterrâneas.
Ninguém encarava com boa vontade, entretanto, qualquer necessidade de dirigir-se à cidade vizinha, onde o vento, de qualquer quadrante que soprasse, era tido como insuportável,
Chapéu na cabeça, preferencialmente apertado e com barbicacho, era a primeira recomendação para quem precisasse fazer alguma coisa na cidade que detinha praticamente todos os serviços públicos.
No inverno ninguém ousava dirigir-se para lá sem um bom sobretudo, para resistir ao frio e ao vento encanado nas ruas de traçados retos, como convinha a uma cidade com razoável planejamento.
Talvez pela inveja da população das demais ou com justificada razão era denominada, pejorativamente, a cidade do vento. Era alvo, inclusive, de frases ou versos que a denegriam.
Ressalta-se que seus próprios moradores davam razão a essas atitudes. Eles também encontravam lá suas dificuldades para suportar o excesso de vento gerado pela conformação dos morros que constituem a serra do mar e as lagoas que a cercam.
A mulher do gerente não suportou o nordestão e fez com que o esposo solicitasse transferência novamente para a capital, fazendo-o, talvez, perder uma boa promoção dentro da carreira que seguia.
A cidade cresceu e o vento já não parece tão forte, talvez pelas edificações cada vez mais altas e compactadas na beira do mar.
A cidade vizinha, Bem, essa foi bafejada pelos ventos do progresso e canalizou-os para quase uma centena de geradores de energia, que dão ao município uma invejável quantia em pagamento do uso de seus domínios.
Seus moradores já não reclamam de qualquer aragem mais forte e o poder público, inteligentemente, adotou o slogan de a Cidade dos Bons Ventos.
Hoje, os municípios vizinhos fazem verdadeiras filas nos portões dos órgãos governamentais, quase implorando o olhar de alguém com poderes para destinar-lhes um pouquinho de sorte, metade chegaria, para fazer a felicidade dos governantes e da população. Certamente seriam criados outros slogans e, em nome do progresso, os ventos mais fortes seriam ignorados e a inveja sepultada.
Nunca o tempo e o vento andaram tão juntos na geração do progresso.