Browsing "Fragmentos Literários"
jan 31, 2011 - Poemas   

O limite

O limite

Por Rosalva Rocha

Aonde reside o limite?

No abrigo,

No casulo,

Ou na vida livre, solta?

Verdades,

Falsidades,

Felicidades,

Infelicidades,

Tempo bom

Tempo nublado

Mas ensopado de desejos …

Desejos sem limites

Que aprisionam o peito

E, sem permissão, tiram-me o fôlego

Tropeço,

Arremeço,

Recomeço e

Não enxergo o sinal

Ele precisa estar verde

Para eu passar com tranqüilidade

Mas a realidade me barra

Me tolhe

Não me acolhe

E eu continuo na fragilidade

Na vulnerabilidade

Aonde reside o limite?

No tempo que estou vivendo sem medo

Ou no medo que este tempo se vá?

Limito-me, neste momento,

A não arrisar palpites

Porque pretendo conviver

Com todas as cores

Extirpar as dores

E viver sem deixar de fazer

O que considero prazeroso

Neste caminho tortuoso

Mas que um dia, eu sei, se dissipará

Viver, simplesmente viver sem limites!

jan 18, 2011 - Contos   

Janaína

Janaína

Por Evanise Gonçalves Bossle

Janaína recuperou a voz, a fala, depois de um longo tempo. Sabíamos que ficaria melhor, com o tempo, o tempo cura tudo, o tempo tudo resolve. Então é uma garota novamente feliz. Feliz!… Janaína não será feliz, terá dias felizes, mas realmente feliz, é certo que Janaína não será…

Estávamos com pressa, também, a chuva piorava, precisávamos seguir viagem, tio Marcos tinha pressa e, mais do que pressa, receio de que a chuva interrompesse a nossa passagem pela ponte. Virgílio era mais otimista, otimista a ponto de querer ficar para o jantar, já estava tomando o habitual aperitivo que Seu Rafael oferecia. Por mim, tanto fazia ir ou ficar. Não sabia a gravidade da chuva, era uma criança, uma criança não, uma pré-adolescente inconsequente e, na verdade queria ficar mais, mais tempo perto dele. Mesmo calada, gostava de Augusto, de 14 anos, precisava ficar mais. Eu era muito tímida, falava pouco, quase nada, principalmente com os meninos. Janaína irritava-me, queria atenção, queria brincar com aquele ursinho e comigo. Eu, uma mocinha, eu que não podia, em hipótese alguma brincar na presença de Augusto, o jovem moreno que estava na frente da TV , na modesta sala, de duas poltronas velhas e a mesa de fórmica lascada.

Minha mãe preocupava-se… sempre se preocupava, raro era estar tranqüila, mas naquela noite, ela estava muito inquieta e já nem ouvia o que Dona Marta, mãe de Janaína e Augusto, dizia.Dona Marta tagarelava incansavelmente. Eu nem prestava atenção, ouvia simplesmente aquele som de conversa, ou melhor, de uma mulher falando sozinha, já que não era uma conversa, era um monólogo, minha mãe apenas assentia com a cabeça, pensando na chuva.

Era chegado o momento da partida. Tio Marcos, depois de rápida despedida, entrou no caminhão, apressado. Nós o seguimos mecanicamente, correndo naquela chuva medonha. Lembro que me despedi de Janaína, contrariada, de sua mãe e abanei a mão para Augusto, que nem retribuiu, fascinado pelo filme da TV, um repetitivo filme de artes marciais de nome complicado.

Depois de uma hora de viagem, tivemos que parar num posto de gasolina devido à força da chuva; as ruas inundavam rapidamente, os buracos de escoamento não davam conta de tanta água. Ficamos no posto por aproximadamente meia hora e iniciamos a jornada. Depois não lembro de quase nada, pois dormi encostada em minha mãe, de mau jeito na pequena boléia. Em meio ao sono, tive sonhos confusos, ouvi muito a voz do tio Marcos, parecia apavorado, eu não sabia o que ele dizia, mas era sobre a chuva, por certo.

Quando acordei, já havíamos chegado. Minha mãe me acordou. Ela estava terrivelmente transtornada, quase chorava, disse-me que era devido às condições da estrada e agradecia a Deus por estarmos todos salvos. Ouvi, depois uma conversa confusa entre os adultos, Virgílio dizia nunca ter visto tamanha desgraça: objetos levados com a correnteza, casas despencando nas encostas dos morros, pessoas correndo de um lado para o outro. E era apenas o começo…

Janaína está bem, come com vontade, já brinca normalmente, e o melhor de tudo, voltou a falar. Quando chegara lá em casa, quatro dias depois de eu tê-la visto em sua casa, agora inexistente, estava irreconhecível, pálida, magra, doente, muda. Eu não falei com ela naquela tarde, fui para casa da tia Sônia, sabia que se ficasse ali, perto dela, lembraria de Augusto e choraria muito, afinal, era inacreditável, tamanha tragédia. Janaína ficara só, sem os pais e sem o belo irmão. Janaína, aquela menininha de cinco anos ficara sem casa, sem nada, e era tão pequena para entender, tão criança para saber realmente o que havia acontecido, mas ela sabia. Era um milagre, diziam, a menina estar salva, as coisas foram levadas com a correnteza. O morro trouxera as casas consigo, todas sobre a de Janaína. Não tiveram tempo nem para entender o que estava acontecendo. Não sei se Augusto viu o final do filme, se pensou em alguma coisa, se sofreu. Também não sei como Janaína se salvou. Falaram pouco sobre isso na casa de tia Sônia, quase nada, sempre quando falavam e eu chegava perto, calavam. Não entendi muito bem. Tudo para mim parecia tão estranho, irreal. Parecia que ao dormir no caminhão eu me negava o direito de acordar daquele pesadelo. Era como se ainda estivesse dormindo, tudo era tão opaco, sem cor, misturado. Acho que o que fez Janaína emudecer, também fez com que me tornasse incapaz de compreender, embora soubesse, não queria saber, embora chorasse, eu não queria sofrer, embora eu acreditasse, não queria acreditar naquela tragédia…

Janaína está bem… Crescemos, mas algo falta em nós. Nunca falamos sobre isso, mas sabemos que perdemos pessoas que realmente amávamos.

jan 17, 2011 - Poemas   

O Amor

O AMOR

Por Suely Braga

O amor ausente
nos caminhantes
que se perdem nos caminhos.
Amor presente
incendeia os corações.
As almas em êxtase
voam na imensidão,
no embalo da magia.
O amor debruça-se
nas incertezas do mundo .

jan 17, 2011 - Poemas   

Tempo Perdido

Tempo Perdido

Por Rosalva Rocha – 10/11/2010

Hoje num silêncio manso
Conseguí enxergar a luz que existe em mim
Uma doçura que eu havia esquecido
Num tempo perdido
Que nem sei para onde  foi
De tão pouco expressivo

E foi nesse silêncio manso
Que pensei em mim
Nos trilhos pelos quais já passei
Sem que os trens tenham atropelado
Meus sonhos
Meus projetos
E tudo o que sempre pensei

O tempo perdido
Foi morto, deposto
Não faz mais parte de mim

Simplesmente tirei-o da minha vida
Como escama que sai aos poucos
E deixa a carne livre, solta
Tal qual ave que voa
E não se assombra com os temporais
Porque  os considera normais

Meu rosto ainda é o mesmo
Tem expressão
Fala com o olhar
E do olhar diz tudo
Tudo o que é preciso falar
E nem sempre possível de expressar

O tempo perdido
Até me fez bem
Tirou-me enganos, profanos
E fez de mim uma
Alma nova
Que passa a viver outros desenganos
E com eles se renova

 

jan 13, 2011 - Poemas   

O véu da noite

O véu da noite

Por Suely Braga

 

O véu da noite desce.

Debruça-se

sobre a languidez do tempo.

Os ponteiros do relógio

se encontram.

Os sonhos voam.

Diluem-se

na escuridão do espaço.

Páginas:«1...31323334353637...53»