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maio 2, 2011 - Contos   

Dignidade na lama da sarjeta

Dignidade na lama da sarjeta

Por Leda Saraiva, 07.01.2011

O sol pouco se mostrou neste dia de verão. A tarde já estava de partida sem aquele pôr-do-sol que inunda a alma de alegria como a força que emana de uma obra de arte e que nos faz sonhar com um novo amanhecer. Nuvens cinzentas cobrem o céu, deixando transparecer alguns espaços, como retalhos coloridos de um azul acinzentado que faria de tudo para ser celeste. A cara feia do fim de tarde induz a um recolhimento extremamente silencioso, quase melancólico. Da janela da sala onde trabalho, vejo um pássaro apressado pousar no frágil galho da espirradeira que se balança com  tamanha afobação da ave. Tão logo pousa, abre as asas quase em desespero, infla o peito e com toda a força de que é capaz canta, ou melhor, grita estridentemente como a anunciar uma catástrofe sísmica. Outros pássaros se achegam disputando espaço na espirradeira que se alteia pela cerca e se debruça sobre o jardim na frente da casa. A amendoeira que há dois invernos rigorosos quase feneceu, embora tenha perdido seus principais galhos que a tornavam mais alta, recupera-se. O jambolão, na calçada, impõe-se com sua copa harmoniosamente redonda, quase alcançando a rede elétrica pública. Estas árvores, ao entardecer, são uma festa para os pássaros. São pousadas de infinitas estrelas.

É fevereiro na praia. Mês nobre de veraneio. Mas, na minha rua, não passa uma viva alma. Os cães, prenunciando alguma coisa, silenciam seus latidos e buscam algum refúgio. Nas varandas das casas a ausência de pessoas torna a rua mais triste ainda. O silêncio é tão profundo, revestido de cinza, que chega a incomodar. Sabe, quando esse tipo de situação nos inquieta e ficamos como os cães, de um lado para outro… Parece que está prestes a se desencadear algum fenômeno… E ficamos impedidos de fazer qualquer coisa, embora o que fazer não nos falte? Dou uma volta pela casa e volto novamente para escrivaninha, diante da janela. Entre a leitura de uma página e outra,  levanto os olhos para contemplar o que se passa lá fora.

Uma voz me chama:

-Senhora!  Senhora!

Levanto-me. Olho para o portão. Uma senhora, veranista.

-Pois não?

-Senhora, há um homem caído ali na sarjeta… Não estou com meu telefone. A senhora poderia chamar alguém para socorrê-lo?

-Vamos ver o que há com ele. Será que teve algum mal-estar ou…

Ela me acompanhou. Chegamos bem perto do acidentado. Bicicleta para um lado homem para outro, estatelado na sarjeta lamacenta. Quem seria?  Como seria sua família? Tinha mulher e filhos? Onde morava? Aparentava meia idade, estatura média. Era claro, talvez descendente de italiano ou alemão. Suas roupas não tinham cor ou tinham se revestido com a cor do entardecer sombrio. Via-se que era uma pessoa simples. Barba por fazer… Não se mexia. Logo pensei que estivesse morto. Por várias vezes o chamamos: “O que houve com o senhor?!” Parecia morto ou desmaiado. Depois de algum tempo em que o observávamos, abriu os olhos. Olhou-nos sem nos ver. Nada respondia. Entrei em casa, pequei o celular e do jardim  disquei para o “190”. Expliquei a situação. A resposta foi pronta: “Não temos viaturas, senhora. Estão todas nas ruas prestando atendimento aos chamados: gente esfaqueada, brigas, acidentados, afogados, agressões familiares… Drogas…”

-Então o que faço com esse homem caído na sarjeta?

-Telefone para o SAMU. Disque para o número tal.

Sem deixar de olhar para o homem, tentava ligar para o SAMU. Falava em voz alta pelo nervosismo e inquietude que a situação me causava. Enquanto estou telefonando, chegam aos meus ouvidos os gritos do homem:

-Fala!…  Fala!…  Fala!… Fala!…

“Ainda bem que não está morto”- pensei.

A recepcionista do SAMU ouviu minha história e me passou para a pessoa responsável por tal tipo de atendimento. Expliquei mais uma vez o ocorrido. A resposta foi direta:

– Não podemos fazer nada, senhora, porque não se configura um acidente. A senhora telefone para a Brigada Militar, “190”.

-Já telefonei. Não há viatura disponível. Sugeriram que ligasse para vocês. O homem está caído na rua, próximo á sarjeta. Há o perigo de ser atropelado a qualquer momento. Só depois de ser atropelado é que devo chamar o SAMU?

-Infelizmente, nada podemos fazer.

E eu? O que faço?

A senhora que me chamou para prestar socorro àquele pobre homem, permaneceu ao meu lado o tempo todo. A informação que se tem, quando nos deparamos com alguém acidentado “é não removê-lo para evitar algum agravamento da situação”. Continuamos a observá-lo de longe. Conseguira sentar-se. Só então percebemos que estava com sinais evidentes de embriaguês. Fiquei mais tranquila porque até parece que bêbados são protegidos por anjos…

Na rua, somente a senhora veranista que passava, eu, o bêbado e o silêncio triste daquele entardecer. A situação fugia de nosso controle. Um pouco afastadas, enquanto pensávamos que providências deveríamos tomar, o homem fez um grande esforço e conseguiu levantar-se. Ergueu a bicicleta. Desequilibrou-se  e caiu de cara no lodo da sarjeta com  bicicleta e tudo. Ali ficou por mais um tempo, caído, com sua dignidade enlameada na sarjeta. Fez mais uma tentativa. Levantou-se com dificuldade. Ergueu a bicicleta. Apoiado nesta, como se fosse um andador e bem devagarinho, foi andando rua a fora…

Os passarinhos calaram-se acomodados nas árvores.

Não consegui nem perguntar o nome da senhora que permaneceu comigo naquela situação. Quando me dei conta, já não estava mais ali.

E o silêncio cinzento encobriu a rua.

maio 2, 2011 - Poemas   

Sou assim…

Sou assim …

Por Rosalva Rocha – 11/04/2011

Já não delimito meu espaço
Ele passou a ser imenso
Propenso
Para tudo o que quero
Seja no verão
Ou no inverno

Quero ar
Vento
Brisa
Campo
Um recanto
Para o meu canto
De alegria ou
Lamento

Janelas e portas abertas
A lua esperando
Meus pedidos
Singelos
Sinceros
Feito criança
Que dança
Ao som do nada
E do nada se abastece
Porque tem todos os espaços

abr 24, 2011 - Poemas   

Páscoa

Por Suely Braga, Páscoa 2011

Páscoa.
Paixão.
Passagem.
Ressurreição.
Vida.
“Eu vim para que todos tenham vida
e vida em abundância “.
Momento de reflexão.
O Ressuscitado
veio para nos libertar
das nossas amarras.
Nos trazer a Paz
e a Esperança
para vivermos em união,
com fraternidade,
solidariedade.
Páscoa é viver em constante libertação.
É lutar por um mundo melhor.
Vencer as desigualdades.
Viver a justiça social.
Páscoa é renascer,renovar.
É viver a Páscoa todos os dias,
em todos os momentos.

abr 20, 2011 - Textos históricos   

Origens da Páscoa

Origens da Páscoa

Por Rodrigo Trespach

Semelhante ao Natal a Páscoa, apesar de ter o caráter cristão de hoje, também está relacionada aos tempos do paganismo Indo-Europeu, principalmente dos povos germânicos. Em português o nome Páscoa está ligado etimologicamente a festa judaica da “Pessach” (passagem), que celebra a passagem do povo hebreu pelo deserto do Sinai durante 40 anos, que é contado no livro de Êxodo, na Bíblia.

A morte de Jesus em uma Páscoa judaica foi associada pelos primeiros seguidores de Cristo, antes de tudo também judeus como ele, como a imolação do cordeiro pascal realizado nessa festa. Jesus Cristo era o cordeiro (o filho) de Deus sacrificado para remissão dos pecados do homem. Sua suposta ressurreição no domingo de Páscoa foi assim associada a um ritual de passagem.

Em 325 d.C., no Concílio de Nicéia, famoso por proclamar muito dos dogmas cristãos, definiu-se também a data da Páscoa. A Páscoa, que encerra o que se denominou de a Paixão de Cristo com sua Ressurreição, ocorreria de acordo com o calendário lunar, conforme a tradição judaica, no primeiro domingo após a primeira lua cheia da primavera no hemisfério norte. Essa data variável ocorre entre 31 de março e 25 de abril.  No entanto, no hemisfério sul, nosso caso, a estação é o outono o que faz com que percamos a compreensão de alguns dos símbolos/significados dessa época.

Ao contrário das línguas com origem no latim, como o italiano, o espanhol e o próprio português, onde o nome da festa recebe influência da palavra hebraica Pessach – daí Pasqua, Pascua e Páscoa respectivamente – as línguas saxônicas, como o alemão e o inglês, usam outra palavra para designar a mesma festa, demonstrando a forte influência pagã. Para os alemães Páscoa é Ostern, para os ingleses Easter.

A religião dos germanos, assim como demais povos da antiguidade, estava geralmente ligada a produtividade da terra e os ciclos de plantação e colheita.  Natural que sua religião fosse o reflexo disso. Ostern, ou Easter, origina-se do nome da antiga deusa germânica da fertilidade Eostre ou Ostara. Eostre estava relacionada ao inicio da primavera (no hemisfério norte), e ao  Eostemonat o mês germânico para essa deusa. Apesar da cristianização, realizada sob a força da espada ainda até o século IX, os alemães, e suas antigas tribos, continuaram a acreditar em seus antigos deuses e tradições, guardando as datas dos solstícios e equinócios, alguns ritos e também símbolos sagrados.

Como exemplo dessa simbologia temos o carvalho. O carvalho era cultuado pelos antigos celtas, era um santuário/templo. Quando os primeiros padres cristãos entraram na germânia para a evangelização tiveram de aceitar certos “dogmas” pagãos, o que se transformou em uma espécie de sincretismo religioso. A própria igreja se utilizou disso para popularizar o cristianismo associando-o aos velhos costumes (mitos e lendas) pagãos.

A igreja procurou aos poucos eliminar alguns costumes e símbolos. Alguns, no entanto, permaneciam intocáveis. O carvalho foi um deles. Conta-se que quando os pregadores de São Bonifácio (672-755), o Apostolo da Germania, tentaram cortar um carvalho para erigir uma igreja no local foram mortos por aldeões que eles haviam “cristianizados”. Muitas igrejas na Alemanha, principalmente em áreas rurais, ainda tem até hoje ao lado do “templo cristão” (a igreja) um “tempo pagão” (o carvalho). A simbologia da Páscoa é outro exemplo, mesmo que ocultos, a maioria dos símbolos da Páscoa são pagãos.

O costume de utilizar ovos como presente também é uma tradição dos povos germânicos (alemães, austríacos, etc..) e dos povos eslavos (ucranianos, poloneses, etc..). Esse costume tem origem, ainda, em tradições pagãs relacionadas à deusa Eostre, deusa da fertilidade a qual o ovo, origem da vida, é símbolo.   O coelho, ou a lebre, igualmente estariam associados à deusa, devido a sua notória fertilidade. No entanto sabe-se que povos da antiguidade, como os persas e romanos, também já tinham esse costume de utilizar o ovo como presente a ser dado na época da primavera, época sempre associada pelos povos antigos como de renascimento, florescimento e fertilidade.

Ora, os germânicos estavam aceitando o cristianismo como religião mantendo os significados de sua antiga cultura, e a Páscoa (Ressurreição de Cristo) foi associada ao Eostemonat (florescimento/renascimento da vida).  Da mesma maneira que Cristo havia vencido a morte (a Paixão na Cruz) renascendo para a vida eterna na Páscoa (a Ressurreição), a primavera era uma passagem da morte (inverno) para a vida (verão) representada na festa para a deusa Eostre.

Com símbolos pagãos e mensagem cristã a Páscoa foi agregando ao longo dos séculos vários outros costumes, variando de um país para outro. Tendo em sua última roupagem os ovos de chocolate, que teriam sido um costume criado na França moderna.

abr 18, 2011 - Poemas   

Os Tempos de solidão

Os Tempos de solidão

Por Delalves Costa

Ao enviar distâncias,
O descartável e-mail
Que afasta as vozes
Que isola os afagos
E amarra os relógios
Sequestram o tempo
E as vigas de metal.
O castelo é de areia…
O mar já não tarda
E o alicerce á deriva!
As pessoas partem,
Seguem e chegam
Como chegam as cópias
Sem tato, sem fogo.
Solitárias, obstinadas
Passam pelos dias,
Vagam pelas noites,
Passam pelas ruas,
Vagam pelos fatos
E negam a si mesmas.
Fronteiras já não há…
O que há são curvas
E distâncias: solidão
Sem direita e esquerda
Sobre a linha tênue;
Solidão enunciativa
Num virtual percurso
Entre o lá e o só!
Descartável est(a)rte
De viver morrendo
A cada metal sem flor…
E poema sem dor…
E carnaval sem cor…
A enviar distâncias,
O eco, a projeção
Da sombra curva
Sem rua, sem teto
Pelas paredes da caverna!

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