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dez 13, 2010 - Crônicas   

É Natal

É Natal

Por Suely Braga, Osório 13.12.2010

Numa gruta nasceu um Menino envolto em panos,rodeado pelos pastores e animais domésticos, que o esquentaram com seu bafo. Acalentado por Maria e José. Tornou-se Humano para salvar a humanidade. Pregou o amor,a fraternidade,a solidariedade e a justiça. Sempre se acercou dos excluídos e menos favorecidos.
É Natal.
As vitrines expondo pinheirinhos,bolas coloridas,pacotes de presentes,papais noeis. As lojas atulhadas de fregueses comprando,comprando,comprando. Nas avenidas os papais noeis se requebram com o vento,outros com guarda-chuvas, abrigam-se da chuva. Os anjos pendurados iluminam com suas luzes azuis,clareando as noites na cidade.
Na televisão as propagandas atordoam crianças e adultos, levando-os ao consumismo exagerado. Os carros de som com música e voz estridente fazem propaganda das lojas.
Há um burburinho nas ruas. É um vai e vem de pessoas caminhando apressadas, carregadas de sacolas cheias de presentes.
É Natal.
Nas casas há muita festa. A ceia é preparada com todo cuidado com castanhas, nozes, frutas, tortas, pudins e panetones sem faltar o tradicional peru assado.
O relógio emparelha seus ponteiros.É meia noite.
Todos os convidados brindam com champanha.
As crianças festejam. O papai noel gorducho encanta e traz alegria e muito alarido.
O Menino Aniversariante está ausente. Não foi convidado para a ceia,ignorando-se o verdadeiro Dono da festa.
Afinal o que comemoramos no Natal ?
A festa do Papai Noel que reina em toda parte, ou o Nascimento de Jesus?
Será que as crianças de hoje sabem que Jesus nasceu em  vinte e cinco de dezembro, por isto comemoramos o Natal?

nov 11, 2010 - Crônicas, Fragmentos Literários   

Suely Braga, a intelectual sonhadora

Suely Braga, a intelectual sonhadora

Por Delalves Costa, presidente da AELN

“Uma intelectual sonhadora”, assim a define a professora e escritora Tereza Gamba. Contista, cronista e poeta, Suely Braga tem despertado enorme atenção do público leitor e da crítica, vencendo concursos literários e participando de obras em diversas cidades brasileiras. Sempre munida de palavras e detentora de uma voz aveludada, por onde passa atende a todos sem distinção, cativando crianças e adultos sempre esboçando prazer nos olhos. Detalhista, tem no olhar a perícia de um fotógrafo em busca do registro mais fiel à realidade, com imagens deslumbrantes tecidas com letras, sons e gestos que saltam da página. Ser a Escritora Homenageada da 25ª Feira do Livro de Osório, neste ano de 2010, é muito pouco para uma escritora que já fez muito pela literatura em Osório e região. Mas antes tarde do que nunca. Com certeza, os momentos em que dará o ar de sua graça no Largo dos Estudantes, durante a feira do livro, serão inesquecíveis à comunidade, pois em cada passo desta operária das palavras seguem-se as pegadas de uma mulher que dedicou sua vida à literatura, quer seja como professora quer seja como escritora.
Em depoimento proferido por Tereza Gamba, escrito especialmente para a orelha do livro “Os últimos acordes do concerto” – obra que Suely publicou em 2007 pela editora Alcance, de Porto Alegre –, fica o registro eterno do quanto a nossa escritora homenageada tem se dedicado ao mundo das palavras. Tereza não mede elogios à amiga, ao dizer que “Suely é uma amiga muito especial de todos os tempos, (…). É uma intelectual sonhadora”. E completa: “Nesse seu andar como educadora, como orientadora educacional e acima de tudo como professora de Português e Literatura, sempre marcou e vem marcando cada vez mais, ser uma amante das palavras, que se manifesta no seu dom de escrever (…)”.
Já para a professora Naura Martins, que prefaciou o livro da autora de contos e crônicas, Suely é singular, que demonstra o domínio da narrativa, com uma prosa entremeada de ação, em movimentos que se cruzam estabelecendo amarras nas vivências das personagens que povoam as histórias contadas num estilo às vezes leve, outros em tom mais sério.
Para o escritor e poeta Delalves Costa – atual presidente da AELN/RS –, discípulo e admirador confesso da autora, “em Os últimos acordes do concerto, as palavras são transformadas em estruturas palpáveis, realizando uma verdadeira autópsia ma vida íntima de suas personagens. Suely, através de seu minucioso detalhar, recolhe as cotidianidades dos mais diversos ângulos e formas. Ao ler seus textos sente-se as imagens em alto-relevo, o dia a dia desenhado pela perfeita harmonia entre realidade e ficção”. Seus textos, seja na prosa ou seja no verso, captam o leitor pela linguagem fluente, poética e madura. Atenta aos assuntos que envolvem a comunidade nas áreas de cultura e educação, não mede esforços para participar ativamente das atividades e dos eventos, brindando a todos com suas sábias palavras.
A escritora Suely Eva dos Navegantes Braga é sócia-fundadora da AELN., além de colecionar importantes prêmios literários, participa publicando poesias, contos e crônicas em inúmeras coletâneas. Também, participou de várias oficinas literárias, inclusive com Moacyr Scliar e Charles Kiefer. “Os últimos acorde do concerto” é o único livro solo, contendo vinte dois contos e oito crônicas, em sua grande maioria premiados ou classificados nos concursos literários. Nasceu em Santo Antônio da Patrulha, mas ainda menina mudou-se para Osório, onde reside até hoje. É pós-graduada em Orientação Educacional pela PUC/RS. Dedicou sua vida profissional ao Magistério, tendo lecionado Literatura e Língua Portuguesa em várias escolas do município de Osório e desempenhado a função de Orientadora Educacional.

 

ago 6, 2010 - Crônicas, Fragmentos Literários   

Conversa no telefone

 Conversa no telefone

Por Suely Braga

O telefone tocou no escritório. A jovem secretária, elegante, no seu bleiser rosado e minissaia, deixando à mostra um par de belas pernas, atendeu.

-É para você Dona Marisa.

-Quem é Márcia?

-É aquela sua amiga, Dona Marlene.

Marisa afasta os papéis que tem à frente e pega o fone.

-Alô! Marlene?

Do outro lado da linha, a voz melosa de Marlene:

-Marisa, querida! Queres ir ao shopping comigo hoje à tarde?

-Marlene, tenho muito trabalho. Preciso despachar uns processos urgentes.

-Ah! Amiga! No fim do expediente. Necessito fazer umas compras. Gostaria de tua companhia-Marlene fala insistente.

-Vais fazer compras? Gastar? Olha a queda das Bolsas.

-Ah! Bem lembrado. Vou mesmo comprar uma bolsa. Preciso de uma bolsa social bem bonita.

-Não, menina. Estou falando das Bolsas de Valores. Por acaso não lês jornais  ? Não acompanhas as notícias?

Marlene com voz incrédula:

-Não tenho lido jornais. Só publicam tragédias. Fico nervosa. Na televisão só vejo as novelas.

Marisa já começando a se irritar.

-É, mas devemos nos informar saber tudo o que afeta nossa vida.

-Nossa vida diária, Marisa? Como? Não estou entendendo nada.

Marisa afastando um pouco o fone resmunga: analfabeta.

-O Beto?  O que tem ele? O Beto está bem.

 

-Não, Marlene deixa pra lá.

-O que tem a ver a queda das Bolsas com as minhas compras?

Era demais.

-Marlene presta atenção! Os juros subiram. Os juros dos cheques especiais, dos cartões de créditos das prestações. Isto tem muito a ver com tuas compras. Sim

-Não tem importância. Vou Fazer minhas compras hoje. Que tal no fim da tarde?

Preciso que me acompanhes, falou Marlene com voz suplicante.

-Combinado No fim da tarde, lá pelas dezoito horas te encontro no Praia de Belas.

 -No Praia de Belas não. No Iguatemi. Dizem que está maravilhoso depois da reforma.

 -Iguatemi!? Certo. Agora vou desligar. Meu trabalho me espera.

– Trabalhar… trabalhar…. trabalho demais faz mal. Precisas te divertir.

– Até logo, Marlene. Um abraço.

Marisa largou o fone com força vermelha de raiva.

-Ignorância tem limite – exclamou fora de si.

jan 28, 2010 - Crônicas, Fragmentos Literários   

Corujas buraqueiras II

Corujas buraqueiras II

 Por Artur Pereira dos Santos

As corujinhas voltaram….E eu também voltei…..
– Espera aí, tem algo errado nestes versos. Não eram as andorinhas?.
– Eram, Zóia, mas nesse caso somos nós mesmos que estamos novamente em evidência: querem construir uma estátua para nós.
– Ora, Zoio isto é coisa de alguém que não percebeu que estátuas irão chamar a atenção e restringir ainda mais nossa liberdade.
– É verdade. Que saudades do anonimato: Do tempo em que só o nosso amigo Joãozinho passava por aqui para armar o foguetório, e ainda pedia licença, lembra?
Foi-se o tempo em que nossos domínios eram respeitados naturalmente e tínhamos o privilégio de uma vez por ano assistir de camarote o espocar dos foguetes.
E nossos filhos, será que terão que limitar-se a morar em nossas tocas durante toda a vida para serem vistos pelos curiosos?
Segundo soube, querem construir a tal de estátua bem pertinho daqui, certamente para nos verem entre estas fitas demarcatórias horrorosas.
E estas placas então! Que passaram a fazer parte de nossas vidas desde aquele final de ano. Sabes o que elas querem dizer, Zóia? – Eu não sei. Parece que foi proposital a colocação delas. Imagina! Nós que somos símbolos da sabedoria, temos que suportá-las sem saber o que está escrito. Suprema humilhação!
– Você lembra, Zóia? Aquele monumento que ainda hoje está ali? Aquele sim, nossos pais nos ensinaram que nos representava com dignidade. Tinha um movimento de olhar de 360 graus, como nós, e servia para guiar quem estivesse em alto mar, mas somente em alto mar, nunca se aproximavam e nem espantavam ninguém.
Meu pai contava que diariamente um velhinho esguio, que tinha um filho deputado, subia até o topo e abanava para ele e minha mãe. Tinham um orgulho danado disso. Ele só não gostava daquele homem que, uma vez por ano, trazia um montão de papéis para queimar ao lado do monumento. Nesse dia eles ficavam virados para o mar, por causa da fumaça nos olhos. Você sabe! Olho de coruja é uma preciosidade, Acho que o homem conscientizou-se disso e parou de queimar papéis ali, acrescentava meu velho.
Soube também das desculpas para construção de outro monumento e a desativação deste: muitas luzes. Muitas luzes e quem estiver em alto mar irá se confundir, diziam. Com coisa que a altura destes monstrengos que nos sombreiam ao cair da tarde e os que estão sendo construídos ao longo de nossos domínios, não emitem luzes suficientes para causar confusão também com o outro monumento. Às vezes me dá vontade mudar de buraco e ser solidário com ele, como foram nossos pais com este aqui.
E querem reproduzir nossa imagem em outros locais sabia, Zóia?
Não, não sabia e nem acho que seja uma boa. Tu achas que eles irão nos reproduzir com a fidelidade que merecemos, inclusive com os movimentos de cabeça que só nós sabemos fazer? Sem falar na originalidade das cores de nossas penas! Irão distorcer nossa imagem, isso sim!
Esses humanos! Veja o exemplo daquela estátua na pracinha. Não aquela do centro. Aquela mais nova, que tem a estátua daquele senhor bonachão que morava perto daqui e que visitávamos com freqüência antes de virarmos “celebridades”, como dizem eles, tentando nos seduzir com palavras bonitas. Pois coitado, nem os óculos possui mais.
Zóia! às vezes fico pensando sobre esse tal de progresso. Esse, que aquele pessoal dos flashes falam enquanto nos dão um empurrãozinho para nossas moradas quando chegam muito perto e sentimos medo. Acho que ele deveria vir acompanhado de tantas outras coisas mais importantes e necessárias que uma estátua. Afinal, o que vamos fazer com ela? Concentrar nossos olhares em sua direção para contar os curiosos?
Garanto que os nossos vizinhos barulhentos, que só descobrimos seus ninhos por sabermos torcer a cabeça para todos os lados sem movimentar o corpo, também não estão de acordo.Ouço falarem entre si que não toleram a presença humana. Já viste algum deixar que um humano se aproxime dele ou de seu ninho?

nov 30, 2009 - Crônicas, Fragmentos Literários   

Lembrando o Dia do Escritor

Lembrando o Dia do Escritor

Por Mariza Simon

O ameaçador augúrio já apareceu nos anos 60 e 70: os sinistros avisos proféticos da morte da literatura e do livro. Muitos pensadores constatam a desimportância da literatura nos dias de hoje e a atribuem ao desaparecimento dos grandes escritores, que representavam a consciência moral e intelectual de seus povos, a exemplo de Victor Hugo, Proust,Tolstoi, Zola, Bernard Shaw, Sartre entre tantos outros. Escritores que formataram o pensamento e a sensibilidade de sua época foram substituídos pelos nomes da cultura de massas e da cultura pop. Neste novo século o irrelevante se tornou o máximo do conhecimento. Alguns escritores atuais preconizam o crepúsculo da atividade literária, acusando os professores culpados por não oferecerem leituras efetivamente vitais aos seus alunos universitários.

O progresso tecnológico trouxe o surgimento de novas artes e de novos gêneros. O domínio dos meios audiovisuais tornou-se absoluto em nossos dias. Tecnologias mais recentes , como a Internet, aprofundaram o caráter terminal da literatura e do livro. Nas livrarias cada vez maiores espaços para CDs e DVDs. Acontecerá de, no futuro, os livros serem relegados aos cantos escuros e às prateleiras escondidas, vistos como curiosas velharias de um tempo remoto ?

Sentencia-se o fim da Era Gutemberg. Atribui-se o declínio da letra impressa ao individualismo e ao narcisismo contemporâneos que, gerando uma sociedade do efêmero, (“Tudo que é sólido se desmancha no ar”) aboliram o interesse pelo passado e a preocupação com o futuro. A natureza mercantilista das relações humanas, do aqui-agora, do eterno presente, do trivial transformar-se-ão no esquecimento de amanhã? Nestes tempos nada permanece: o sucesso é efêmero,o entretenimento é passageiro, as palavras caducam e se liquefazem.

Com estas premonições, algumas discutíveis, outras aparentemente falsas, podemos concluir que diante de tais argumentos, nós escritores, seremos uma espécie extinta em algumas dezenas de anos, assim como foram os dinossauros há milhões de anos passados.

Apesar de tudo resistimos às ameaças que pairam sobre os livros que amamos, as leituras que fazemos, as palavras que escrevemos. Por uma questão de bairrismo, regionalismo , seja o que for, não podemos renunciar àquilo que até nos torna seres anacrônicos em um mundo onde tudo parece estar condenado à brevidade e à falta de transcendência. Mas – teimosos e visionários- nós encararemos o infinito sombrio e não desistiremos.

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