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mar 2, 2010 - Contos   

Oh Lua Cheia!

Oh Lua Cheia!

Por Rosalva Rocha – 26.2.2010

26 de fevereiro de 2010. Saio de Porto Alegre à tardinha rumo ao último final de semana de veraneio em Tramandaí, a tão conhecida “capital das praias”, a praia que me abriga desde a infância, onde eu encontro amigos pelas esquinas, caminho nas manhãs pelo calçadão sentindo a brisa do mar e me delicio com momentos muito propícios para divagar e escrever à noite.

A auto-estrada está como eu gosto, com trânsito intenso, mas sem engarrafamentos. Os inúmeros carros cruzam as pistas pelo caminho e acabam me proporcionando uma deliciosa sensação de companhia. Não estou sozinha! Começo a pensar: “O que será que essas pessoas dentro de seus carros, uns luxuosos, outros muito simples, ouvem nos seus rádios/CDs? Sobre o que elas conversam?” Algumas, no momento de alguma ultrapassagem, olham pra mim e esboçam um leve sorriso. Cumplicidade?

Certa melancolia paira no ar. Afinal, os finais de semana deste verão foram bons, cheios de sol e boas energias, muito chimarrão e a companhia de amigos e vizinhos com espíritos dóceis e sempre com dicas úteis para a minha vida. Um verão onde a cumplicidade e empatia dessas pessoas me fizeram muito bem. Eu estava realmente precisando delas neste veraneio, totalmente diferente dos outros, e com elas aprendi coisas simples que já deveria ter aprendido há muito tempo, a exemplo de aprender a rezar um terço da forma correta, de transformar uma simples canga em vários modelos diferentes, de pintar alguns móveis antigos com criatividade e alegria, de fazer um drink muito simples e gostoso, ornamentado com hortelã e, especialmente, de gostar mais e mais de mim e tomar conhecimento de que, apesar dos meus inúmeros defeitos, sou “dona do meu nariz” e ponto final!

Aliado a esses fatos, outros também precisam ser registrados: alguns encontros casuais com pessoas queridas que eu não via há muitos anos, açaí na tigela no Glut´s, um crepe de chocolate de vez em quando, algumas refeições carinhosamente preparadas como surpresa para aguçar ainda mais o meu paladar após a chegada da praia, muita leitura e por aí afora. Eis que de repente a sombra de uma lua cheia surge à minha frente na imensidão do céu! Uma cena maravilhosa! Adoro a lua quando está cheia – ela sempre me proporciona coisas boas. Mesmo consciente da atenção necessária ao volante, começo a fitá-la seguidamente. E ela passa a ser minha cúmplice. Em pensamento, começo a conversar com ela, a contar os meus enganos, os desenganos, os planos e a certeza que tenho de que muitas coisas boas acontecerão neste ano. Bons presságios, sim! Muito bons presságios! Mais alguns minutos e, do lado esquerdo enxergo, ao longe, a minha cidade natal – Santo Antônio da Patrulha – a responsável em alguns aspectos pelo que sou hoje. Lá sempre fui muito feliz junto à minha família até os 18 anos e granjeei amigos que me acompanham até hoje e para lá retorno sempre que possível. Vontade de entrar no entroncamento … Mas o atraso já está evidente e preciso seguir. Um bip-bip-bip soa do meu celular. Apanho-o e leio a mensagem que provém da minha irmã mais velha: “Já estou quase saindo. Estou felizzzzz”. Aquele “felizzzz” me deixou mais feliz ainda. Nada como sentir que alguém que a gente ama está bem. Passo o primeiro pedágio e esqueço do dinheiro, tamanho o envolvimento com a mensagem e a minha lua companheira. A cobradora, com olhar simpático, me fita com um ar de questionamento e eu, finalmente, acabo entendendo que preciso pegar a bolsa. Pedágio pago! Cupom na mão! Arranco o carro e retorno a olhar a lua. Neste momento já não tenho mais qualquer dúvida: ela é minha cúmplice por inteiro. Certo excitamento começa a me contagiar e acabo apertando o acelerador do carro com mais força. 125Km/h. Ôpa! Calma! Não posso deixar que o encanto desses momentos me contagie a ponto de correr um perigo desnecessário. Segundo pedágio! Com o “fora” no primeiro, os R$ 7,00 reais já estão nas mãos. Sigo o caminho.

Começo a avistar a Lagoa dos Barros à direita, que sempre me encanta com a sua beleza e as suas lendas contadas por meus pais na minha infância. Em seguida avisto o parque eólico, também maravilhoso e, de repente, a noite começa a surgir e a minha companheira já está muito mais clara e brilhante. O contraste com o escuro do céu é encantador. Recomeço o diálogo com mais energia e peço a ela, em voz alta, equilíbrio suficiente para seguir a minha vida com dignidade e que os recomeços neste ano sejam gratificantes, com boas doses de sabedoria. Subitamente enxergo dentro dela “um homem plantando um pé de alface”, fato que me foi induzido por minha avó paterna quando eu era criança (acreditem: sempre que vejo uma lua cheia continuo enxergando dentro ela um homem plantando um pé de alface). Eu sei que são as suas nuances, mas o homem está lá trabalhando.

Estranho que a noite se prenuncia … Esqueço que o horário de verão findou na semana passada. O horário está certo. 18h30min. Tempo suficiente para chegar em casa, conversar um pouco com minha mãe e descansar. E a minha cúmplice continua a me acompanhar. Ela está “totalmente cheia”, do jeito que gosto. Apareceu para brindar o meu final de veraneio e, para não perder o costume, mais um pedido faço a ela, exatamente na passagem pela entrada da estrada do mar – neste momento quase não consigo mais enxergá-la: “que ela me ilumine e me proteja sempre e que eu não esmoreça em quaisquer situações negativas e, especialmente, não permita jamais que eu deixe de amá-la”. O trajeto foi maravilhoso, brindado, tranqüilo, seguro e “acompanhado” – tudo o que eu precisava neste dia. As surpresas desagradáveis deste veraneio simplesmente “viraram pó” – sabe-se lá se aconteceram …

Já estou em casa. E felizzzz!

fev 25, 2010 - Contos, Fragmentos Literários   

A queda do Jacarandá

A queda do Jacarandá

Por Artur Pereira dos Santos

Velavam-te os pássaros que de ti dependiam.
Os homens, embora descansassem em tua sombra, traziam seus cães para urinarem no tronco, enquanto tropeçavam em tuas raízes, ignorando o tapete de flores que o vento estendera na primavera.
O peso dos ramos, contendo ervas demais para a sobrevivência de uns poucos sabiás citadinos, anunciava a tua queda, prematura para tua espécie.
O tempo, muito tempo, não foi suficiente para alertar as autoridades sobre a necessidade de cuidados.
A poda que te daria viço chegou atrasada. Podaram antes tuas raízes.
Bastou um vento mais forte, a chuva erodir o chão, onde um dia alguém te plantou, e a morte foi decretada.
Quem te abreviou a vida e um dia descansou em tua sombra será acusado de tua morte.
Quem, por ofício, devia cuidar de ti, continuará chegando atrasado.
Quem velava por ti encontrará outros ramos para deitar seu ninho.
Teu tronco se transformará na poluição que combateste.
Enquanto isso, o ar, que querias tornar puro, foi insuficiente no pulmão do homem que se dirigia ao altar.

fev 3, 2010 - Contos   

A estrada

A ESTRADA

Por Artur Pereira dos Santos

O reflexo do sol nos olhos interrompeu o mais longo pensamentos que teve nos últimos anos.
Baixou o pára-sol do carona até uma posição em que apenas os raios que tingiam de vermelho as nuvens mais baixas eram vistos e tentou retomar a concentração.
Maldito Sol, pensou. – Onde estava mesmo? Igualdade? Liberdade?. Lembrou, era esta a palavra que gravara por último na memória. Era de liberdade o último pensamento interrompido.
Para ele esta palavra sempre tivera um significado expressivo. Era a que mais marcava sua memória nos principais momentos.
Mas havia mais coisa naquilo que conseguira juntar enquanto seus olhos se fixavam, ora no asfalto esburacado, ora nas margens desiguais da estrada, nunca coincidentes com a paisagem que conhecia
Pensou que talvez tivesse sonhado. Mas não, as lembranças eram reais demais Nos sonhos são desbotadas.
Num gesto automático, acariciou a barba por fazer, como se quisesse amenizar o princípio de irritação que começava a sentir. Acalma-te hombre, pensou consigo mesmo. Nem tudo está perdido.
Afinal, uma nova vida irá começar em teu novo destino.

jan 3, 2010 - Contos, Fragmentos Literários   

O Bug do Espelho

O Bug do Espelho

Por Leda Saraiva Soares

Meio ao profundo silêncio, um estrondo… Seria uma bomba jogada à nascente das águas lendárias da fonte localizada nas proximidades de Téspias na qual Narciso se enamorou de sua própria imagem? Seduzido por sua beleza, permaneceu ali, contemplando-a até consumir-se. Nasceram de seu corpo raízes e ele se transformou na flor conhecida pelo nome de Narciso.

Seria o “Bug” do Milênio? Sinais tão esperados em fim de século? Sinais dos tempos? Ou simplesmente, como querem alguns, apenas virada de ano? Chegada de uma nova era?

O velho espelho redondo, medindo quase um metro de diâmetro, com moldura antiga e resistente, de cor manteiga, com um tope entalhado na madeira da moldura que indicava a posição certa na parede, não quis assistir à chegada do ano 2000.

Eram 16 horas do dia 29 de dezembro do ano de mil novecentos e noventa e nove, quando desabou, ficando a parte do espelho voltada para o piso.

Quantas imagens esparramadas pelo chão entre cacos… Risos, trejeitos de adolescentes, de adultos e de crianças, congelados no tempo, desde o final da década de setenta.

Da velha fonte, jorrava, em torrente pela sala de nossa casa, muitas imagens de jovens, amigos de nossos filhos, nossos amigos que sempre nos visitavam, nós mesmos esparramados pelo chão.

O “Orango” foi o primeiro a se precipitar e, com ele vieram tantos: o “Cavalo” (Pedro), o “Felpa” (Vladimir), o “Bino” (Armindo), o “Pinico” (João), a Daniela, a Jussimeri, o “Goiaba” (Cassiano), o “Nuvem” (Alexandre), o “Anão” (José), a “Courila” (Jaqueline)….

Depois outra torrente trazia a geração mais nova: a Rafaela, a Lisiane, a Karina, a Raquel, a Denise, a Mirian…

Mais afoitos e fazendo estripulia, saíram dali a Gisele, a Vitória, o Ícaro, o Marcelo, o Pedro, a Mariana, o Mateus, a Marina…

Só a bisa (vó Mariquinha) presenciou o “Bug” do espelho.

Ao chegarmos a casa, voltávamos de Porto Alegre, deparamo-nos com a vó Mariquinha sentada em sua cadeira de balanço e, a seus pés, o velho espelho emborcado. Disse-nos que se despencou fazendo um ruído medonho. Ainda bem que não caiu por coima dela. Antes de erguê-lo, cheguei a pensar que estivesse inteiro. Na hora de desvirá-lo, deparamo-nos conosco: o Noel e eu, saindo por entre os cacos. Lá no fundo, vimos outras pessoas desconhecidas que também se refletiram naquele espelho em outros tempos.

O espelho, qual água nascente da fonte onde Narciso se enamorou de si mesmo, por muitos anos, nos fez companhia, ocupando um lugar de destaque na sala de nossa casa, ou melhor, já fazia aparte da casa quando a adquirimos.

Esse espelho era irresistível, atraindo para si todos os olhares daqueles que chegavam à sala, refletindo o Narciso que cada um traz consigo.

Aquela moldura tão antiga já se integrara ao nosso ambiente familiar e mereceu outro espelho. Hoje, moramos em Imbé e o espelho nos acompanhou.

dez 22, 2009 - Contos   

Noites natalinas

Noites natalinas

Por Mariza Simon dos Santos

Quero escrever sobre o cotidiano natalino que a a cada ano se repetiu com o mesmo ritual: o pinheiro araucária trazido do mato, enfeitado com algodão e bolas coloridas, o rústico presépio, Papai Noel, uma figura mágica , as velas acesas para esperá-lo e os cantos natalinos entoados ao som do piano e do acordeão. Ah! Se me lembro daqueles natais!

Uma ceia farta na grande mesa centralizada com o conhecido peru, abatido na véspera, bolachas , nozes , não faltando outros saborosos complementos. E os doces? Como faltariam os doces numa mesa alemã? Torta, pudins, caramelados e a tão apreciada “torta de sorvete”, feita a muitas mãos.

Toda a família em frente ao pinheiro, tios,tias,primos e primas, toda a parentela, amigos, convidados, em torno da cadeira de balanço onde reinava a figura central de minha avó paterna.

A cerimônia natalina começava, alvoroço na sala apertada. O som de um sino abafado anunciava a chegada do tão esperado Papai Noel. Emoção: olhos arregalados e corações batendo e ele chegava com seu HO! HO! carregando um grande saco de estopa às costas, auxiliado pelos tios que tb. carregavam sacolas cheias de presentes.,

As crianças iam cumprimentá-lo , estendendo a mãozinha e estalando um tímido beijo em sua face fria. Ele perguntava sobre a escola e o comportamento, dando conselhos. Aos mais levados, mediante a intervenção de um dos pais presentes, levantava a mão mostrando uma vara fina do marmeleiro que havia no pátio da casa.

Depois das saudações vinha a hora de arte. As crianças recitavam versinhos, outras entoavam cantos natalinos e ensaiavam passos de dança, encorajadas pela entusiasmada parentela, acrescida dos orgulhosos pais.

Vovó, orgulhosa, balançava a cabeça sorrindo ,sentada na sua inseparável cadeira-de-balanço.

Ah! Como eram bons meus tempos de infância ! Como eram bons os meus Natais! Ainda existem na minha memória ! Da mesma forma, mantenho o mesmo tradicional ritual para que meus netos guardem nos seus corações a lembrança destes momentos mágicos em suas vidas!

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