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jan 18, 2011 - Contos   

Janaína

Janaína

Por Evanise Gonçalves Bossle

Janaína recuperou a voz, a fala, depois de um longo tempo. Sabíamos que ficaria melhor, com o tempo, o tempo cura tudo, o tempo tudo resolve. Então é uma garota novamente feliz. Feliz!… Janaína não será feliz, terá dias felizes, mas realmente feliz, é certo que Janaína não será…

Estávamos com pressa, também, a chuva piorava, precisávamos seguir viagem, tio Marcos tinha pressa e, mais do que pressa, receio de que a chuva interrompesse a nossa passagem pela ponte. Virgílio era mais otimista, otimista a ponto de querer ficar para o jantar, já estava tomando o habitual aperitivo que Seu Rafael oferecia. Por mim, tanto fazia ir ou ficar. Não sabia a gravidade da chuva, era uma criança, uma criança não, uma pré-adolescente inconsequente e, na verdade queria ficar mais, mais tempo perto dele. Mesmo calada, gostava de Augusto, de 14 anos, precisava ficar mais. Eu era muito tímida, falava pouco, quase nada, principalmente com os meninos. Janaína irritava-me, queria atenção, queria brincar com aquele ursinho e comigo. Eu, uma mocinha, eu que não podia, em hipótese alguma brincar na presença de Augusto, o jovem moreno que estava na frente da TV , na modesta sala, de duas poltronas velhas e a mesa de fórmica lascada.

Minha mãe preocupava-se… sempre se preocupava, raro era estar tranqüila, mas naquela noite, ela estava muito inquieta e já nem ouvia o que Dona Marta, mãe de Janaína e Augusto, dizia.Dona Marta tagarelava incansavelmente. Eu nem prestava atenção, ouvia simplesmente aquele som de conversa, ou melhor, de uma mulher falando sozinha, já que não era uma conversa, era um monólogo, minha mãe apenas assentia com a cabeça, pensando na chuva.

Era chegado o momento da partida. Tio Marcos, depois de rápida despedida, entrou no caminhão, apressado. Nós o seguimos mecanicamente, correndo naquela chuva medonha. Lembro que me despedi de Janaína, contrariada, de sua mãe e abanei a mão para Augusto, que nem retribuiu, fascinado pelo filme da TV, um repetitivo filme de artes marciais de nome complicado.

Depois de uma hora de viagem, tivemos que parar num posto de gasolina devido à força da chuva; as ruas inundavam rapidamente, os buracos de escoamento não davam conta de tanta água. Ficamos no posto por aproximadamente meia hora e iniciamos a jornada. Depois não lembro de quase nada, pois dormi encostada em minha mãe, de mau jeito na pequena boléia. Em meio ao sono, tive sonhos confusos, ouvi muito a voz do tio Marcos, parecia apavorado, eu não sabia o que ele dizia, mas era sobre a chuva, por certo.

Quando acordei, já havíamos chegado. Minha mãe me acordou. Ela estava terrivelmente transtornada, quase chorava, disse-me que era devido às condições da estrada e agradecia a Deus por estarmos todos salvos. Ouvi, depois uma conversa confusa entre os adultos, Virgílio dizia nunca ter visto tamanha desgraça: objetos levados com a correnteza, casas despencando nas encostas dos morros, pessoas correndo de um lado para o outro. E era apenas o começo…

Janaína está bem, come com vontade, já brinca normalmente, e o melhor de tudo, voltou a falar. Quando chegara lá em casa, quatro dias depois de eu tê-la visto em sua casa, agora inexistente, estava irreconhecível, pálida, magra, doente, muda. Eu não falei com ela naquela tarde, fui para casa da tia Sônia, sabia que se ficasse ali, perto dela, lembraria de Augusto e choraria muito, afinal, era inacreditável, tamanha tragédia. Janaína ficara só, sem os pais e sem o belo irmão. Janaína, aquela menininha de cinco anos ficara sem casa, sem nada, e era tão pequena para entender, tão criança para saber realmente o que havia acontecido, mas ela sabia. Era um milagre, diziam, a menina estar salva, as coisas foram levadas com a correnteza. O morro trouxera as casas consigo, todas sobre a de Janaína. Não tiveram tempo nem para entender o que estava acontecendo. Não sei se Augusto viu o final do filme, se pensou em alguma coisa, se sofreu. Também não sei como Janaína se salvou. Falaram pouco sobre isso na casa de tia Sônia, quase nada, sempre quando falavam e eu chegava perto, calavam. Não entendi muito bem. Tudo para mim parecia tão estranho, irreal. Parecia que ao dormir no caminhão eu me negava o direito de acordar daquele pesadelo. Era como se ainda estivesse dormindo, tudo era tão opaco, sem cor, misturado. Acho que o que fez Janaína emudecer, também fez com que me tornasse incapaz de compreender, embora soubesse, não queria saber, embora chorasse, eu não queria sofrer, embora eu acreditasse, não queria acreditar naquela tragédia…

Janaína está bem… Crescemos, mas algo falta em nós. Nunca falamos sobre isso, mas sabemos que perdemos pessoas que realmente amávamos.

set 21, 2010 - Contos   

Abdução

Abdução

Por Evanise Bossle

É noite de um vinte ou vinte e um de junho qualquer. Mas já é tarde, duas horas da manhã. Eu durmo em meu quarto, quando ouço um som estranhamente azul, são harpas, violoncelos, tambores e teclados. Levanto-me com meu pijama da Hello kit branco e abro a porta da sacada do 5º andar. Dali vem o som todo azul. Dali vem uma estranha fumaça triangular e dela sai uma pequena escada toda prata. Não penso, é parte de um sonho talvez, simplesmente subo a escada e vejo-me no interior da fumaça também prata. O som harmonioso de um tom de azul turquesa é calmo, mas nitidamente mais forte ali dentro. Não há ninguém, apenas uma luz forte no centro do triângulo. Sinto um movimento semelhante ao movimento de um elevador quando sai do térreo em direção ao 18º andar, não há outro som além do azul de harpas, violoncelos, tambores e teclados.
Outro movimento suave, parece-me ainda um elevador parando. Desço do triângulo prata pela mesma escada. Agora, o que vejo é estranho, peculiar, uma porta altíssima de igreja medieval, ultrapasso-a, e mais outra, e mais outra, sucessivas portas metálicas, amarelas reluzentes. Há entre elas inúmeros raios de sol que vêm de um lugar ainda mais alto que as inúmeras portas, são raios de uma luz muito forte que fere a visão. Esses raios de luz chocam-se com o solo, que é também de um amarelo vibrante. Não consigo visualizar o interior dos portais. A luz intensa impede-me. Agora, sim, parece que ultrapasso a última abertura. Há um salão oval, também amarelo, muito amarelo. O som aqui já não é azul, é todo metal, não há mais cordas, embora também seja um metal suave. Parece-me que o que cria o som são meus próprios passos no solo. Aqui vejo pela primeira vez depois da sacada, seres, são três homens de longas batas prateadas, não possuem cabelos, mas são o que poderíamos classificar de belos homens, não magros, mas fortes. Parecem irmãos tamanha semelhança, talvez pela careca reluzente e pela bata. Estão de pés descalços, mas não visualizo todo o pé, porque a bata toca o chão. Estão sérios, mas de uma seriedade acolhedora, parecem conhecerem-me a muito, mas nunca os vi. Não há palavras. Nem eu tenho nada a perguntar, parece-me que sei a resposta, as informações apenas chegam em meu cérebro tal qual estivesse em silêncio lendo um livro.
Sei do que se trata,… Agora um deles se aproxima, toca-me os cabelos, meus longos cabelos cacheados da cor daquele solo. Seu toque é suave, sinto sono, muito sono, um sono incontrolável, sinto-me desfalecer em seus braços. Outra vez o som azul, mas agora o som está indo embora. A luz da fumaça prata vai embora. Agora permanece o sono na cama do 5º andar.
ago 6, 2010 - Contos, Fragmentos Literários   

O tempo e o vento

O tempo e o vento

Por Artur Pereira dos Santos

           

            A brilhantina  e outros fixadores de cabelo se notabilizaram rapidamente entre os jovens da época..

            A mulher do gerente de uma grande empresa, recentemente transferido para o litoral reclamava do endurecimento dos cabelos devido ao nordestão misturado com maresia, que soprava inclemente no litoral, principalmente no inverno.

            Reclamava com freqüência da dificuldade de pentear as longas madeixas de cabelos castanhos acostumados ao clima da Capital. Somente os nativos suportavam o desgrenhar de cada mecha cultivada com a dificuldade das mulheres dos trabalhadores da construção civil, cumulativamente ao trabalho da casa, onde, não raro, a própria gordura das mãos ajudavam a assentá-los sobre a cabeça

            Raras mulheres tinham afazeres diferenciados dos que se constituíam, do amanhecer ao anoitecer, os cuidados com a própria casa. Estas, ou não reclamavam por falta de tempo ou por solidariedade às conterrâneas.

            Ninguém encarava com boa vontade, entretanto, qualquer necessidade de dirigir-se à cidade vizinha, onde o vento, de qualquer quadrante que soprasse, era tido como insuportável,

            Chapéu na cabeça, preferencialmente apertado e com barbicacho, era a primeira recomendação para quem precisasse fazer alguma coisa na cidade que detinha praticamente todos os serviços públicos.

             No inverno ninguém ousava dirigir-se para lá sem um bom sobretudo, para resistir ao frio e ao vento encanado nas ruas de traçados retos, como convinha a uma cidade com razoável planejamento.

            Talvez pela inveja da população das demais ou com justificada razão era denominada, pejorativamente, a cidade do vento. Era alvo, inclusive, de frases ou versos que a denegriam.

            Ressalta-se que seus próprios moradores davam razão a essas atitudes. Eles também encontravam lá suas dificuldades para suportar o excesso de vento gerado pela conformação dos morros que constituem a serra do mar e as lagoas que a cercam.

            A mulher do gerente não suportou o nordestão e fez com que o esposo solicitasse transferência novamente para a capital, fazendo-o, talvez, perder uma boa promoção dentro da carreira que seguia.

            A cidade cresceu e o vento já não parece tão forte, talvez pelas edificações cada vez mais altas e compactadas na beira do mar.

            A cidade vizinha, Bem, essa foi bafejada pelos ventos do progresso e canalizou-os para quase uma centena de geradores de energia, que dão ao município uma invejável quantia em pagamento do uso de seus domínios.

            Seus moradores já não reclamam de qualquer aragem mais forte e o poder público, inteligentemente, adotou o slogan de a Cidade dos Bons Ventos.

            Hoje, os municípios vizinhos fazem verdadeiras filas nos portões dos órgãos governamentais, quase implorando o olhar de alguém com poderes para destinar-lhes um pouquinho de sorte, metade chegaria, para fazer a felicidade dos governantes e da população. Certamente seriam criados outros slogans e, em nome do progresso, os ventos mais fortes seriam ignorados e a inveja sepultada.

            Nunca o tempo e o vento andaram tão juntos na geração do progresso.

           

maio 14, 2010 - Contos, Fragmentos Literários   

O Esquilador

O Esquilador

Por Artur P. dos Santos

“As tesouras cortam em um só compasso
enrijecendo o braço do esquilador”.

Também roubaste galinhas? Era a pergunta comum quando alguém aparecia de cabeça raspada na pequena cidade, onde todos conheciam todos. Tudo por conta de alguns rapazes que tentaram surrupiar algumas penosas para festejar o aniversário de um deles e foram pegos em flagrante e levados até a autoridade policial,

O delegado da época sabia que não era caso extremo. Aquilo não passava de arroubo de jovens e determinou que todos tivessem a cabeça raspada, como punição..

Enquanto isso o cabelo do rapazote continuava espetado. Sentia vontade de raspá-lo, quem sabe ao crescer viesse diferente. Talvez com a possibilidade de armação daquele topete que tanto admirava nos mocinhos dos filmes que assistia aos domingos no único cinema da cidade. Faltava-lhe, entretanto, coragem para enfrentar a gozação dos amigos.

À medida que o tempo passava, seu cabelo tomou outra forma, dificultando-lhe a manutenção sobre a cabeça quando o nordeste soprava mais forte. Depois veio a necessidade de reparti-los para fechar a clareira que se acentuava no ponto mais alto de sua mediana estatura.

Os anos passaram, A cidade cresceu. Seus habitantes eram outros. Talvez ninguém mais lembrasse do episódio das galinhas e ele voltou a pensar em raspar a cabeça. Já não sentia constrangimento e aprendera a assimilar todas as observações feitas sobre o avançado espaço sem cabelos no mesmo lugar que antes tentava esconder.

Sentou-se na cadeira do salão de costume e foi apresentado ao responsável pelo corte daquele dia. Era véspera de natal e estava disposto a raspar a cabeça antes de passar alguns dias no litoral.

Não era o mesmo profissional que conhecia. Era novo no estabelecimento e ele tratou de questioná-lo sobre a habilidade que possuía.

À medida que ia sendo informado do currículo, foi criando coragem para pedir que passasse a máquina número três, Avaliaria e, se gostasse, passaria para a de número dois. Afinal, foi informado de que o homem tinha trinta e quatro anos de idade, dez como profissional no corte de cabelos, trabalhando em um salão com seu pai, com quem aprendera tudo.. E mais, dos dezenove aos vinte e quatro havia trabalhado na tosquia de ovelhas na fronteira gaúcha. Podia confiar.

mar 16, 2010 - Contos   

Grupo do joelho, ou quando o SUS é melhor

Grupo do joelho, ou quando o SUS é melhor

Por Artur Pereira dos Santos

Quem não conhece as dificuldades na área da saúde em nosso país? Hospitais fechados por insolvência: deles ou de seus administradores. Falta de leitos e emergências entupidas fazem o noticiário de todos os órgãos de imprensa. A culpa é sempre do SUS (Sistema Único de Saúde).

Na verdade, não há quem discorde disso: o próprio sistema, através de seus representantes, admite as dificuldades e promete resolver, embora saibamos que são apenas falácias pré-eleitorais ou para tentar justificar casos mais graves, em que a opinião pública se movimenta.

Parte da sociedade, mais abonada, apela para o plano de saúde, mesmo lamentando ter contribuído durante a vida e alimentado a vã esperança de que o final dela seria tranqüilo e quando precisasse de um médico ou uma internação hospitalar estivessem à disposição.

Geralmente pagando caro, depara-se, às vezes, com casos em que o plano de saúde se constitui em obstáculo ao atendimento imediato, podendo gerar riscos ao beneficiário.

Assim foi o caso do paciente que possuía plano de saúde e teve negado o transporte para a capital, devido à ambulância do hospital de sua cidade somente servir a pacientes do SUS, sendo necessária a chamada de um meio de transporte próprio da mantenedora do plano, o que poderia ter causado sério prejuízo ao usuário, devido a maior demora no atendimento especializado.

Há casos também que beiram a hilaridade como o que aconteceu com outro paciente que tendo machucado o joelho, com suspeita de rompimento de menisco, dirigiu-se ao atendimento de uma emergência e teve o diagnóstico do traumatologista de que realmente poderia ter rompido, ou quase, o menisco interno do joelho esquerdo, devendo voltar dentro de um mês para novo exame, pois, após esse tempo, poderia estar se sentindo melhor, se não tivesse ocorrido o rompimento total e ele seguisse à risca as recomendações de repouso, manutenção do joelho enfaixado em determinados momentos e aplicação de gelo em outros.

Passado um mês, sentindo-se bem melhor, dirigiu-se ao mesmo local, na certeza de que receberia instruções para aguardar mais algum tempo, com o mesmo tratamento, até a total recuperação.

O médico já não era o mesmo e o paciente, apesar de ter explicado as recomendações de seu colega, precisou sujeitar-se a um novo exame, desta vez com maior esforço da parte machucada, o que lhe deixou o joelho mais dolorido. Por fim,o médico recomendou-lhe que voltasse no dia seguinte para submeter-se ao exame do “grupo do joelho”.

Desconfiado, mas acreditando que no dia seguinte seria examinado rigorosamente por mais pessoas e talvez fosse encaminhado para uma ressonância, conforme o médico deixou transparecer, com vistas a determinar se devia ou não fazer uma cirurgia, lá se apresentou, afinal, estava por conta do plano de saúde, o negócio era aproveitar para curar-se.

Espantou-se quando verificou que o propalado grupo consistia de apenas um médico diferente, que lhe examinou o joelho com mais rigor ainda, torcendo-o para todos os lados e arrancando-lhe alguns gemidos de dor.

Terminado o exame do “grupo” foi dispensado com a recomendação de que procurasse um clínico para emitir uma requisição junto à mantenedora do plano de saúde para, enfim, fazer uma ressonância.

Ainda hoje está pensando se segue a recomendação ou recomeça o tratamento, desta vez procurando alguém que atenda pelo SUS, que certamente lhe dispensará uma olhadinha básica ao joelho machucado e recomendará repouso, uso de faixa e compressas de gelo. Até estar caminhando normalmente.

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