Browsing "Contos"
dez 7, 2014 - Contos   

O frio

Por Artur Pereira dos Santos

Aqui entre nós! Achas que estás muito perto de mim? E eu te digo que estás apenas encostada em mim. É grande a distância entre nós, quase setenta anos.

Em todo esse tempo passaram-se tantas coisas que desconheces. Por exemplo: Brincaste com boizinhos de sabugo? Não né?. Sabias que no meu tempo não se encontrava para comprar essas bonecas lindas com que brincas hoje? Bem, eu nem brincaria com elas, é coisa de menina.

Eu já era bem grande e tive que fazer meus próprios brinquedos: Tive que construir carrinhos de madeira para brincar na lama quando chovia.

Ah, e quando não chovia eu jogava bola. Qualquer bola: de meia, de trapos enroladas em fios que retirava do rolo que a vovó usava para fazer mantas tecidas em um antigo tear de madeira.

O tear era tão rústico e antigo que parecia pintado de suor misturado ao sangue de suas mãos calejadas.

Mas sabe de uma coisa? A vovó também me dizia que eu estava distante dela no conhecimento da vida. Eu achava que não, até ajudava ela a desenrolar os fios de fazer mantas.

Hoje eu entendo o que ela queria dizer. Tu também entenderás um dia, pois essa distância que te falo é apenas o recheio dos sonhos de quem durante a existência quer brincar com todos os brinquedos que a vida vai construindo e com todas as crianças que, através de gerações, vão ajudando a desenrolar os fios com que tecemos as mantas que aquecem nossos corações. Vamos entrar. Tá tão frio aqui.

out 9, 2014 - Contos, Últimas Notícias   

Concurso Cultural Moacyr Scliar – Contos

O Santander Cultural, em parceria com as Secretarias Estaduais da Cultura e Educação lançou na última sexta-feira, dia 26 de setembro, o Concurso Cultural Moacyr Scliar – Contos Revisitados para alunos do ensino médio da rede pública estadual vinculados à 1ª (Porto Alegre), 2ª (São Leopoldo), 27ª (Canoas) e 28ª (Gravataí) Coordenadorias Regionais de Ensino (CRE). O projeto integra as atividades relacionadas à mostra Moacyr Scliar – o Centauro do Bom Fim, em cartaz no Santander Cultural até 16 de novembro, com entrada franca.

O concurso propõe que os alunos desenvolvam redações que tenham como tema norteador do texto o primeiro parágrafo de um dos contos publicados por Moacyr Scliar. O tema deve estar articulado com as atividades desenvolvidas em sala de aula, conforme o nível de ensino de cada participante. Cada texto inscrito deve ser impresso em folha tamanho A4 e conter até quatro laudas, em fonte Arial tamanho 11 e espaçamento 1,5 linhas.

Com apoio da Câmara Brasileira do Livro, as inscrições são gratuitas e ocorrem de 26 de setembro a 31 de outubro. A premiação será no dia 4 de dezembro. O concurso premiará o melhor texto com notebooks para a escola e o professor e tablet para o aluno. Os segundo e terceiro lugares também ganharão tablets.

Clique aqui e confira o regulamento do concurso

Fonte: Asscom Sedac
set 26, 2014 - Contos   

O vício

Por Artur Pereira dos Santos

    Já não estudava mais: o ciclo de estudos acabara após o quinto ano e ele sentia saudades dos livros que retirava na biblioteca da escola. Eram fábulas de Esopo, La Fontaine, contos de Andersen e tantos outros que hoje nem lembra.
    Nunca reclamou do pai por não tê-lo enviado à cidade vizinha para continuar estudando, mas não esquecia o fato de ouvi-lo dizer à mãe que se pudesse manter um dos filhos na escola escolheria sua irmã. Ele era homem e poderia trabalhar em qualquer coisa, ao contrário da irmã, que tinha apenas a possibilidade de se tornar professora e encontrar um bom marido.
    – Apaga essa luz guri! Agora esse vício de ficar lendo até tarde. Ainda tem outros pirralhos que vêm lá do centro trocar essas revistas contigo.
     – Não são revistas, são gibis: eles contam histórias de heróis que lutam contra o mal e sempre saem vencendo.
    – Aí que mora o perigo, retrucava o pai, sem atentar que na cabeça do filho muito além da importância dos cavalos roubados, do resultado do tiroteio nas planícies ou da frustração nas emboscadas armadas pelos bandidos ele conservava o hábito da leitura, numa época em que comprar livros ou mesmo revistas estava longe de seu alcance.
    Às vezes o Salmi, seu velho amigo de folguedos, deixava alguns gibis para que ele trocasse com outros meninos da vila e assim ampliavam a possibilidade de leitura. Roi Rogers, Durango Kid, Zorro, Cavaleiro Negro e outros, são rostos inesquecíveis, muitos deles aliados às suas montarias: Quem daquela época, que gostasse de ler gibis, não se lembra do Silver empinando no alto da colina no final de cada história.
    Com o tempo, o gosto foi mudando e Ellery Queen era o máximo, não havia caso insolúvel para o astucioso detetive. Depois vieram os livros de bolso escritos em língua espanhola, onde os mocinhos rolavam no chão, de um lado para outro e conseguiam desviar-se das seis balas do Smith & Wesson do bandido.
    Por fim os livros: Livros de verdade, enfileirados em sua memória sequiosa de letras e sonhos, engolidos noite a dentro, como ainda fazem suas filhas, que não descuidam de repassar o vício aos netos, estes já com leitura dirigida para os livros infantis e juvenis, conforme o caso.
     Hoje todos os cantos da casa respiram livros. Sabe que jamais se livrará do bendito vício, que causa dependência como todos os outros, com a diferença que educa e afasta das ruas.

mar 25, 2014 - Contos   

Escrito para as Estrelas

Por Maria de Lourdes Werlang        

Letícia pinta com uma agulha, belas flores num  pedaço de tecido que será uma toalha de mesa. Enquanto ela solta sua criatividade nesse contexto de bordados, sua imaginação alça  voo  ao planeta dos sonhos. Lá se entrega  à  leveza das nuvens e com elas encontra um mundo de prazer, onde a felicidade tem as cores alegres do amanhecer.
        Letícia,  como toda jovem,  almeja encontrar seu príncipe encantado. Aos dezoito anos, conhece um  jovem belo e educado que cativa  seu coração. Durante vários meses, o namoro  acontecia como um conto de fadas. Tudo lindo!
        Num determinado momento, o destino cruel,  separa os dois.
        Passados alguns anos, Letícia encontra alguém que lhe oferece guarida  e muito amor. Ela carente e desprovida do convívio familiar, aceita  esse afeto e se une em casamento.
        Essa  mulher  que dominava a agulha e com ela criava desenhos coloridos sobre o tecido, não conseguia colorir o tecido da sua história. Ela provou o amargo da vida, mesmo recebendo de Deus, o tesouro dos filhos. Sempre atenta para manter um lar em harmonia, apesar dos desamores constantes. Seu coração desprovido de ódio e rancor  sempre encontrava o oásis do perdão para fortalecer seu amor à vida.
        Os anos se passaram, Letícia  e seu companheiro buscaram  um lugar silencioso para morarem, pois seus filhos já estavam adultos e seguiam seus caminhos.
        Amanheceu um lindo dia! Os acordes da natureza se mesclava entre o canto dos pássaros e o ruído das águas da cascata descendo  pelas  pedras.
        Ela acorda cedo, prepara  um  saboroso café para os dois, pois hoje era um dia muito especial, era o dia de  aniversário de casamento. Aguarda seu marido, na expectativa de um abraço carinhoso.  Roni levanta, vai até à cozinha, sem nada falar.
        – Mulher, onde está meu chapéu?
        – Ali no cabide, amor.
        – Vou fazer uma caminhada.
        Letícia desapontada, fala:
        – Eu posso ir contigo?
        – Não  Letícia, tu estás muito gorda, além de feia, ainda caminha devagar.
        Palavras podem  ter o  poder  de balas mortíferas, quando mal usadas. Os sentimentos daquela  mulher foram atingidos pelo  efeito letal  do que ouviu. O silêncio foi sua resposta. Apenas duas lágrimas insistentes  rolam  pela sua face sofrida.
        Depois da saída de Roni, ela pega seu chapéu e sai a caminhar por uma trilha da mata. Essa sim, ouve seus lamentos,  oferece sua sombra para seu corpo descansar, consola sua dor com o canto dos pássaros e ainda lhe proporciona o aconchego do silêncio.
        Ao voltar,  já restabelecida, Letícia segue sua rotina de vida. Ela não guarda mágoa, mas seu coração se fechou  aos afetos daquele homem.
        Um ano se passa, exatamente na mesma data, Letícia recebe a  notícia  de que seu companheiro  havia  sido atropelado na estrada quando fazia sua caminhada costumeira e havia morrido antes de chegar ao Hospital.
        A vida continua para essa mulher, porém agora escrevendo um novo capítulo da sua história.
        Vai em busca de fontes  de prazer, viagens, artesanato e serviços de assistência social.
Numa dessas viagens,  ela percebe  que um senhor  a observa muito. Fica um pouco tímida e se retrai. O homem chega até ela e pergunta:
        – Como é teu nome?
         Sou Letícia de Lima e você quem é?
        – Sou Alberto da Costa. Lembras de mim?
        – Oh! SENHOR! Como não lembrar?
        Ambos ficaram num estado de transfiguração. Falar para quê?!…
        Alberto  teria sido seu primeiro namorado e ela sua primeira namorada.
        Daquele dia em diante, completaram juntos e radiantes aquela viagem. Ambos estavam viúvos e o caminho aberto para os dois.
        Agora  aquela mulher sentia a força do amor, oriunda  do coração de um homem e à isso ela correspondia  com  toda sua sensibilidade.
        Durante o período de namoro, constroem  sonhos. Planejam a execução de uma Horta Comunitária para beneficiar o bairro e unir pessoas num mesmo objetivo.
        Alberto, sempre muito romântico, diz e repete:
        – Nosso amor estava escrito nas estrelas, por isso , essa nova chance em nossas vidas.
        Para homenagear essa  frase  do amado, ela está a bordar estrelas numa colcha que será usada na cama  do casal.
        Os dias passam e a data do enlace religioso se aproxima.
        Um cunhado de Alberto, irmão de sua  esposa falecida,   é  sócio dele numa fábrica de esquadrias. Ao se desentenderem,  Roque numa crise de fúria, puxa um facão que carrega  na cintura e grita, espumando de ódio:
        – Escolhe cara, ou tu ou ela vão morrer. Não vou deixar tu dividir o fruto do nosso trabalho com aquela megera…
        _ Calma Roque. O que é isso?! Respondeu assustado Alberto.
        _ Tou falando sério. Escolhe, se quer poupar tua vida, vou até a casa da megera e acabo com a vida dela, mas antes te deixo amarrado aqui.
        Alberto desprovido de qualquer forma de defesa, apenas sussurrou:
        -A Letícia não vais matar, não. Se queres me mata, covarde!
        – Roque finca o facão no peito de Alberto que cai já quase sem vida.  Ao ver o que tinha feito, Roque sai em disparada, mas é interceptado por um policial que passava por ali e logo foi  prestar conta à Justiça dos homens. Alberto é levado ao Pronto Socorro, mas já  sem vida.
        Na sua casa, Letícia acaba de bordar sua colcha e recebe a visita de sua melhor amiga e confidente.
        – Sarita tu nem imaginas, a felicidade que experimento em companhia do meu amado. As vezes penso que essa alegria  é tão intensa que meu coração nem vai aguentar. Dito isso,  Letícia  sente uma tontura e cai desacordada. Sarita a leva para o Pronto Socorro. Passados alguns minutos, ela sofre uma parada cardíaca e morre.
        Letícia morre num estado de felicidade, sem saber que realmente,  SEU AMOR ESTAVA ESCRITO “PARA” AS ESTRELAS!

jun 4, 2013 - Contos   

Clara

Por Suely Braga

Clara acordou com o tilintar vibrante do despertador. Espreguiçou-se sonolenta e deu um salto da cama. Tomou um banho rápido. Acordou os meninos.Esquentou a água, colocou-a no nescafé. Sorveu alguns goles,comeu um pedaço de pão dormido com manteiga.Serviu Nescau com leite aos filhos.Tirou as xícaras da mesa,lavou a louça.

Foi ao quarto, olhou-se no espelho, sentiu-se abatida  por uma noite mal dormida, penteou os cabelos já um pouco prateados.Passou baton.

Os ponteiros do relógio correm. Mesmo que acordasse cedo tinha sempre  que correr.

Deu um beijo nos filhos, atravessou a sala em disparada em direção à porta de saída enquanto grita:” meninos, não vão se atrasar, vão depressa para a escola”.

No caminho aspirou ao aroma das flores, sugou a beleza da manhã. Percorreu quase correndo as quadras até o terminal do ônibus e.enfrentou a fila imensa.

Entrou e acomodou-se no acento duro de fibra Ao seu lado estarrachou-se uma mulher gorda comprimindo-a contra a janela. Com os olhos cemicerrados tentou cochilar.

O ronco do motor, o vozerio dos passageiros imprensados no corredor, as freadas bruscas, os buzinaços impediam-na de dormir. O aluguel atrasado, as contas de luz, água, telefone, o pagamento do condomínio fervilhavam na sua cabeça como uma panela de pressão.

O marido desempregado perambulando o dia inteiro pela cidade só ouvia:”não há vagas”.Desesperado entrando em depressão, tornando –se agressivo em casa.

Dá o sinal na campainha. Desce na frente do velho prédio desbotado, as paredes que há longos anos não recebem pintura, vidros quebrados nas janelas assoalho encharcado nos dias de chuva.

As crianças esperavam-na. Correm ao seu encontro, abraçam-na entusiasmados. Entra na sala e começa a aula. São trinta e cinco alunos que falam, interrogam, esperam. Atentos, ou, distraídos, aguardam suas respostas e explicações.

A sineta soa. As crianças se dispersam. O beijo da saída e o “até manhã, professora”.

Vai até a cozinha, come um sanduíche que trouxe na sacola. Tira da geladeira o suco que a merendeira preparou.Vai com passos apressados até a parada na frente da escola.

O tempo mudou, a temperatura baixou. O vento fresco começa a soprar. Olha para as gordas nuvens que cobrem quase todo o ceu.

Põe a sacola no ombro. A sacola cheia de livros e mais os produtos do Avon. Embarca no ônibus lotado. Espremida entre os passageiros, sacolejando vai até o fim da linha.

A chuva começa a cair, é uma chuva fina. Caminha na  calçada repleta de pessoas que caminham apressadas,voltando para casa. Chega ao apartamento 305 para entregar os produtos.

Passa na padaria para comprar leite e pão. Entra na fruteira para levar verduras.

Chega em casa.O marido lê o jornal na frente da televisão. As crianças lêem. Tira os sapatos, atira-se na cama sem coragem para se despir. O corpo moído,tensa,estressada.Seu corpo, sua mente estão pedindo férias.Sair, passear, relaxar, longe de tudo e de todos.

Vai preparar o jantar e o almoço, porque amanhã é outro dia. Vai fazer uma gostosa massa com molho, que todos adoram.

Amanhã continuará a rotina.

 

 

Páginas:«123456»