Contos
Sem comentario Grupo do joelho, ou quando o SUS é melhor
Grupo do joelho, ou quando o SUS é melhor
Por Artur Pereira dos Santos
Quem não conhece as dificuldades na área da saúde em nosso país? Hospitais fechados por insolvência: deles ou de seus administradores. Falta de leitos e emergências entupidas fazem o noticiário de todos os órgãos de imprensa. A culpa é sempre do SUS (Sistema Único de Saúde).
Na verdade, não há quem discorde disso: o próprio sistema, através de seus representantes, admite as dificuldades e promete resolver, embora saibamos que são apenas falácias pré-eleitorais ou para tentar justificar casos mais graves, em que a opinião pública se movimenta.
Parte da sociedade, mais abonada, apela para o plano de saúde, mesmo lamentando ter contribuído durante a vida e alimentado a vã esperança de que o final dela seria tranqüilo e quando precisasse de um médico ou uma internação hospitalar estivessem à disposição.
Geralmente pagando caro, depara-se, às vezes, com casos em que o plano de saúde se constitui em obstáculo ao atendimento imediato, podendo gerar riscos ao beneficiário.
Assim foi o caso do paciente que possuía plano de saúde e teve negado o transporte para a capital, devido à ambulância do hospital de sua cidade somente servir a pacientes do SUS, sendo necessária a chamada de um meio de transporte próprio da mantenedora do plano, o que poderia ter causado sério prejuízo ao usuário, devido a maior demora no atendimento especializado.
Há casos também que beiram a hilaridade como o que aconteceu com outro paciente que tendo machucado o joelho, com suspeita de rompimento de menisco, dirigiu-se ao atendimento de uma emergência e teve o diagnóstico do traumatologista de que realmente poderia ter rompido, ou quase, o menisco interno do joelho esquerdo, devendo voltar dentro de um mês para novo exame, pois, após esse tempo, poderia estar se sentindo melhor, se não tivesse ocorrido o rompimento total e ele seguisse à risca as recomendações de repouso, manutenção do joelho enfaixado em determinados momentos e aplicação de gelo em outros.
Passado um mês, sentindo-se bem melhor, dirigiu-se ao mesmo local, na certeza de que receberia instruções para aguardar mais algum tempo, com o mesmo tratamento, até a total recuperação.
O médico já não era o mesmo e o paciente, apesar de ter explicado as recomendações de seu colega, precisou sujeitar-se a um novo exame, desta vez com maior esforço da parte machucada, o que lhe deixou o joelho mais dolorido. Por fim,o médico recomendou-lhe que voltasse no dia seguinte para submeter-se ao exame do “grupo do joelho”.
Desconfiado, mas acreditando que no dia seguinte seria examinado rigorosamente por mais pessoas e talvez fosse encaminhado para uma ressonância, conforme o médico deixou transparecer, com vistas a determinar se devia ou não fazer uma cirurgia, lá se apresentou, afinal, estava por conta do plano de saúde, o negócio era aproveitar para curar-se.
Espantou-se quando verificou que o propalado grupo consistia de apenas um médico diferente, que lhe examinou o joelho com mais rigor ainda, torcendo-o para todos os lados e arrancando-lhe alguns gemidos de dor.
Terminado o exame do “grupo” foi dispensado com a recomendação de que procurasse um clínico para emitir uma requisição junto à mantenedora do plano de saúde para, enfim, fazer uma ressonância.
Ainda hoje está pensando se segue a recomendação ou recomeça o tratamento, desta vez procurando alguém que atenda pelo SUS, que certamente lhe dispensará uma olhadinha básica ao joelho machucado e recomendará repouso, uso de faixa e compressas de gelo. Até estar caminhando normalmente.